:: Casamento Misto: Problemas religiosos ::

Apesar do enorme abismo cultural e religioso que nos separava, eu e o falecido nunca tivemos problemas em relação a essas questões. Religiosidade nunca foi o meu forte e graças a Deus que ele era um muçulmano tranquilo, pequeno detalhe que cooperou bastante para os bons momentos que tivemos ao longo da vida de casados. Eu não via muito objetivo lógico em dezenas de tradições religiosas que ele seguia, mas eu respeitava a devoção que ele tinha a elas, ele sonhava que eu largasse o cristianismo e fosse tão muçulmana quanto ele era, mas respeitava a minha decisão de permanecer no cristianismo, em relação a isso, viviamos em harmonia. Mas a nossa vida de casados não se resumia a nós dois, paralelo a isso eu tinha que lidar com uma sociedade islâmica e ele tinha que lidar com uma sociedade cristã, e aí o universo todo parece que conspirava, só não ao meu favor!

No Egito em que eu viví, a grande maioria das pessoas valorizava a religião acima de qualquer outra coisa neste planeta, fato que colocou o falecido em calças curtas. Ele nunca sequer perguntou se eu tinha algum pensamento remoto em me converter ao islamismo, mas eu sabia que ele era cobrado por isso. As pessoas não estavam muito interessadas no meu nome, mas de cara já queriam saber se eu era muçulmana, e quando ele dizia que eu era cristã, as reações não eram muito acolhedoras. Eles aceitavam, mas era como se falassem: “Tá bom, ela é cristã, mas você tem a missão de trazê-la para o nosso grupo”, o que não foi muito diferente com ele quando viemos morar no Brasil… A mãe dele tinha uma aversão tão grande a tudo que não fosse islâmico que chegou ao ponto de me proibir categoricamente de usar um pingente em formato de cruz que eu tinha, isso sem contar nas diversas vezes em que a irmã dele tentou me evangelizar e me convencer de que o islamismo era a única religião correta no mundo. Psiu! Não estou dizendo que é assim em todo o Egito tá, nada do que eu falo aqui deve ser tomado como regra, algumas pessoas tem sorte, outras não, no meu caso com o Egito, fiquei no segundo grupo… A pressão sobre ele começou a ficar tão intensa que quando as pessoas perguntavam a ele qual era a minha religião, ele dizia que eu era muçulmana, fato que me irritava profundamente e me fazia questionar qual era o problema em ser cristã naquele país! Cristãos e muçulmanos dividem o mesmo espaço geográfico, dizem que vivem bem, só não sei afirmar de forma geral na prática até que ponto vai a literalidade desse “bem”, comigo foi tudo muito parcial. Gostaria muito de ter a opinião de um copta (cristão do Egito), um evangélico ou católico que tenha morado lá… de repente o problema foi só comigo…

Mas os problemas religiosos não pararam por ai… Infelizmente o link com essas informações foram perdidos em uma visita de um Cavalo de Troia ao meu antigo computador, mas na epoca eu tinha encontrado por aqui algumas informações sobre leis no Egito, e tinha lido lá que a esposa cristã não tinha os mesmos direitos que a esposa muçulmana, claro que eu achei que aquilo era alguma pegadinha ou palavras de alguem mal informado e nem dei muita importancia. Ía perguntar ao falecido a respeito, mas em meio a tanta coisa pra fazer, eu acabei esquecendo. Até que certo dia fui dar uma olhada na certidão de casamento:

- Geeente mas porque é que tem que colocar a religião no documento?!  Qual o interesse do governo em saber se a pessoa é muçulmana, cristã, judia, hinduista, ateia…?!  – Perguntei ao falecido -
– É que dependendo da religião a pessoa terá 100% dos direitos constitucionais. A esposa muçulmana tem todos esses direitos, as que seguem outra religião tem algumas restrições…
– Mas como assim?! A religião de cada um é algo que não interessa ao governo, que tem a ver leis do país com a escolha religiosa de cada um?!
– Mas é assim…

Eu havia esquecido que no Egito o Estado e a religião andam de mãos dadas, não da pra saber onde que termina um e começa o outro, e já bem consciente de que nem eu e nem o falecido mudaríamos a realidade do país, e que eu havia casado com o falecido e não com o governo egípcio, achei melhor nem tocar mais no assunto, mesmo achando tudo aquilo um preconceito religioso sem fim. Ahh! Tambem não conseguia aceitar o fato de que o homem muçulmano podia casar com uma cristã ou uma judia, mas a mulher muçulmana não podia casar com um homem judeu ou um cristão. Porque será hein?!…

Alguns meses depois lá estávamos nós falando sobre filhos, e como era de se esperar, não demorou muito para que o assunto religião fosse acoplado a conversa:

- Meus filhos serão muçulmanos! – Falou o falecido -
– W-H-A-T-?

Essa parte não estava no script, se não me falhe a memoria, poucos meses atras ele havia dito que a educação religiosa dos filhos seria condicionada ao sexo delas, se fosse uma menina seria educada no cristianismo e se fosse um menino seria educado no islamismo. É, mas agora ele tinha mudado de ideia, argumentava que o cristianismo do Brasil era uma bagunça e que ele não permitiria que os filhos dele fossem criados dessa forma, como se o estilo de vida de um cristão brasileiro fosse o mesmo estilo de todos os outros milhares de cristãos espalhados pelo nosso território… mas meus argumentos de nada valiam, filho de muçulmano TINHA que ser muçulmano e ponto final. Nada contra ter filhos educados no islamismo, desde que eu tivesse o mesmo direito de apresentá-los ao cristianismo. Esquece! Esses direitos só existiam na minha cabeça brasileira. Esse era o único tema ligado a religião que colocava o falecido e eu em pé de guerra. Esses filhos nunca vieram… graças a Deus!!

… dos problemas de um casamento misto, esses foram dos menores. Apesar de tudo, nos entendiamos, era só não tocar na questão da religião que os filhos seguiriam :D

E quanto aos problemas culturais?! Ahh só amanhã agora … Aguardem! ;)

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8 Respostas para “:: Casamento Misto: Problemas religiosos ::

  1. bobagens, o amor vence tudo!

  2. Concordo com vc sobre os relacionamentos mistos. Principalmente de mulheres cristãs e homens muçulmanos. Pessoalmente vivo experiência semelhante. O que mais me entristece é que uma cultura e sua sociedade priorize os rótulos (muçulmano ou cristão), (ocidental ou oriental), (homem ou mulher), etc… e se esqueça que tanto a cultura quanto a sociedade são feitas de “SERES HUMANOS”, todos iguais perante DEUS, todos com 2 olhos para enxergar o outro, 1 boca para dizer que aceita o diferente, 1 coração para amar sem preconceitos, uma mente para raciocinar que os seres humanos é que comandam as regras e nunca ao contrário. Não importa a RELIGIÃO, e sim o SENTIMENTO.

  3. Mas todas as religiões em sí são tolerantes, no fundo no fundo todas elas buscam e ensinam a paz, o problema está em determinados seguidores que não respeitam o espaço daqueles que seguem outras linhas de pensamento e daí tentam pelo fim da força fazer com a pessoa mude suas ideologias, e infelizmente no mundo islamico em que eu vivi isso aí era uma constante :(

  4. Não sei se deixei claro, não enfrento problemas maiores e amore está sempre do meu lado pra me defender. Isso é o que importa. Mas tem uma base de coisas que sabemos. Tipo essa questão dos filhos é uma delas. Meus filhos serão muçulmanos. Primeiro porque sou uma católica que só foi batizada, não acredito muito nessas coisas. Aliás …. acredito que as religiões foram criadas nesse mundão solamente pra regular, colocar medo e limites na galera. Naquele tempo não existia leis então pra mim foi por isso que inventaram. Pra todo mundo ter medo de alguma coisa ou de alguém. E respeitar.
    bjkasssssssssss

  5. Oieeeeeeeeeeee ….. tenho q confessar que adoro ler teu blog, e na maioria das vezes assino embaixo sobre coisas do Egito sim.
    Bom, eu casei com um muçulmano, muito gente boa, muito amado por mim e querido. Ainda estamos nos conhecendo, apesar de termos casado com 6 meses de vida virtual. Mas ele me apoia e diz que isso é bobagem que o que importa é eu e ele. Até agora temos ido bem.
    Mas realmente aqui religião vem antes do nome. Na ID deles vem a religião, em tudo a religião vem antes. Eu não me converti e nem penso, lógico que ele espera q eu me converta mas já disse … 4 dias antes de morrer eu me converto ou se eu conseguir me aposentar e ter uma vida confortável me converto … hehehehhe
    Todos e tudo perguntam pra mim e/ou pra ele quando me converterei. E quando a resposta é não a Júlia não quer, o sorriso some da face de qualquer um. E tô pra dizer, que as mulheres são as mais manipuladoras, preconceituosas e falsas do que os homens. Elas fingem que te aceitam do jeito que tu és, mas não é só a casca por fora. Elas te julgam muitooo mais do que um homem te julgaria. Isso é fato!
    Amore já xingou umas mulheres na rua…. elas pensaram q eu e ele fossemos estrangeiros porque estávamos falando em Inglês e começaram a dizer: “quem ela pensa que é para usar roupas assim? Ela pensa que está na Europa e em USA (ninguém diz Brasil … heheh ou América Latina!)”, lógico que ele rebateu na hora e elas se assustaram e ficaram quietinhas … hehehe. Eu não tava usando alcinha e nem tava com as pernocas de fora! Tava toda tapadinha!
    Pois é … essa é a sociedade do Egito. E nem adianta reclamar que ninguém irá mudar. Será tempo perdido!!!
    bjkassssssss

    • Oi Julitaaaa ;)

      Que bom te ver por aqui, e fico IMENSAMENTE feliz com tua participação, é bom ouvir quem está no centro da cultura, dessa forma somos entendidas melhor e acima de tudo, quem está de fora percebe que o que é postado aqui realmente acontece no Egitão. Algumas pessoas insistem que o problema foi com a família do falecido, foi no bairro onde eu morei, foi na minha cabeça, e bla, bla, bla, mas que no Egitão há liberdade religiosa e a vida é um mar de rosas vermelhas entre cristãos e muçulmanos… Juuuura?! Wow! Não foi isso que eu ví…

      Eu tambem não tive grandes problemas religiosos com o falecido, so mesmo essa questão da religião dos filhos, mas fora isso nos entendíamos até muito bem, e quantas vezes ele enfrentou a própria familia por minha causa, meu grande problema era com a sociedade egípcia em sí que tem a religião islâmica acima de qualquer coisa, e ainda bem que estas aí pra confirmar isso, e sinceramente eu jamais seria feliz vivendo nesse contexto, essa foi uma das causas que me fez fazer o possível e o impossível pra morar no Brasil…

  6. realmente é complicado, alias foi complicada a sua relação. :(

    • Pois é Silesia, não que isso seja regra, há pessoas que fazem parte de um casamento misto mas conseguiram a proeza de serem felizes apesar de todas as diferenças. No caso do casamento entre cristão e muçulmano, se a mulher for bem submissa e conseguir desligar o botão pra essas diferenças, ela segura o casamento numa boa, como submissão é uma questão que eu sempre tive muita dificuldade em lidar… eu optei pela separação. Eu respeito qualquer cultura e religião, desde que a minha seja respeitada de igual modo. No meu casamento com a cultura islâmica eu não ví isso, sempre eu que tinha que ceder a tudo, eu tinha que aceitar que meus filhos fossem criados no islamismo, mas o islamismo em hipótese alguma poderia aceitar que esses filhos fossem criados no cristianismo, se eu quisesse ter os mesmos direitos da esposa muçulmana, eu tinha que me tornar muçulmana, as leis egípcias não me aceitariam como cristã, eu tinha que ser cristã em secreto porque as pessoas ao redor criticavam o falecido por ter casado com uma cristã e não com uma muçulmana… aí ficava difícil, se eu aceitava todos como eles eram, então no mínimo eu esperava que eles me aceitassem tambem da forma como eu era, e o problema nunca foi com o falecido em sí, como eu disse no post, em materia de religião até que nos entendíamos bem, todo o problema era com o sistema religioso e cultural que exercia uma pressão enorme tanto sobre mim quanto sobre ele… e como submissão não é muito meu forte, eu vivia em alto stress quando eu percebia que as pessoas não me aceitavam como eu era. Repito, isso não é regra, a minha experiencia foi essa, infelizmente conheço outras brazucas que passaram pela mesma situação tambem, mas ainda assim não é regra, enquanto comigo e umas outras deu errado, com algumas outras deu certo… É tudo uma questão de sorte!

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