A ordem cronológica normal em um relacionamento seria primeiro um tempo do que chamamos de namoro, que é onde os dois pombinhos apaixonados se conhecem melhor, apreciam as qualidades, analisam os defeitos e veem se há algum jeito de moldá-los ou se vale a pena conviver com eles para sempre amem, se não vale a pena, o relacionamento acaba e cada um vai pro seu lado, caso contrario logo vem o segundo step: o noivado, um passo para o casamento, e já da pra pensar em assuntos mais serios, como o financeiro, por exemplo, geralmente é nessa fase que o casal planeja onde que vão morar, trabalham feito loucos para ter tudo ao seu modo, princialmente a casa onde eles irão morar após o casamento, não importa se é alugada ou propria, quer dizer, até que importa, mas levando em consideração a situação economica do mundo, casa própria é privilegio de um pequeno grupo de casais em inicio de vida conjulgal, então, se não da pra comprar a casa própria antes de casar, mas o normal é que se tenha pelo menos uma alugada, nada de morar na casa dos sogros. Depois da vida material mais ou menor organizada, vamos então ao altar e pedir a Deus que os felizes para sempre seja uma realidade dia após dia…
Agora vem cá… Alguem me explica porque é que nos relacionamentos a distancia as coisas geralmente acontecem pelo caminho inverso?! Conheço várias brasileiras que casaram com egípcios que conheceram pelo mundão virtual e as historia são sempre tão parecidas, o “amor” é tão grande que tem que casar a todo custo e o mais rápido possível, essas questões de se conhecer melhor, saber os defeitos e qualidades do outro, conhecer a familia, a cultura do outro, planejar a vida após casamento… fica tudo pra depois do casamento, primeiro casa, depois vê isso. O amor é lindo, mas o risco que se corre numa aventura dessas é terrível, e nem todos tem a sorte de obter sucesso…
Depois de um ano e um mês de contato a distancia, eu e o falecido resolvemos casar. Meus conhecimentos de cultura egípcia eram pra lá de teoricos e os dele de cultura brasileira mais ainda, eu não sabia muita coisa das manias dele e o mundo virtual não deixava que eu percebesse os defeitos e muito menos se eu seria capaz de moldá-los ou de conviver com eles, levando em consideração que eu só aparecia por aqui de bom humor, ele tambem não teve muita chance de conhecer o meu lado negro e de igual modo, saber se seria capaz de conviver com ele. Surgiu a ideia de conhecer as familias primeiro e só depois pensar em casamento, assim como é nos relacionamentos convencionais, mas levando em consideração a distancia entre Brasil e Egito e a disponibilidade do bolso da minha saia e da calça dele, se fosse fazer da forma convencional, o casamento ficaria para depois, e bem depois. Tudo era muito relativo, o falecido tinha um flat meio caminho andado no Cairo, então a principio era mais lógico morarmos no Egitão, mas não é novidade que a realidade economica no Egitão não é das melhores, e assim como centenas de outros egípcios, o falecido pensava em tentar a vida fora dos limites egípcios. O Brasil agora era uma opção, mas aqui eu não tinha uma casa minha, e comprar um imovel agora seria impossível. O mais sensato era não casar agora e planejar melhor o futuro, correto?! Isso nos relacionamentos convencionais, mas como na maioria dos relacionamentos virtuais a cronologia dos fatos é aleatória e nunca sobra tempo pra planejamento… decidimos ficar no Egito mesmo, depois veríamos como que seria o futuro…
O falecido tinha um flat novo no Cairo, mas estava em processo de construção ainda. Era um flat de três andares, deixado pelo pai dele, um andar pra cada filho (ele e a irmã) e o outro para o pai e a mãe, mas daí o pai dele adoeceu e a construção do flat ficou pra depois, e eles continuaram morando no flat antigo, tudo isso antes do falecido sonhar em me conhecer. Quando nos conhecemos e decidimos casar, ele retomou a construção do flat dele, mas daí ainda faltava TODOS os moveis e esperar pra casar depois do flat todo pronto, levaria mais algum tempo. Nos casamentos convencionais os noivos esperam, mas nos casamentos a distancia, geralmente improvisam. A mãe do falecido, gentilmente, ofereceu a casa dela para morarmos, enquanto o nosso flat ia se organizando: pior coisa que eu poderia ter feito na vida!
Casando com um egípcio, morando na casa dos sogros ou não, você tambem se casa com a familia dele, isso não tem como evitar, só que morando com eles o stress é pior ainda porque em T-U-D-O eles meterão o dedo, a não ser que você seja M-U-I-T-O sortudo e encontre uma família que saiba respeitar os limites alheios, coisa dificil no Egitão. A minha experiencia de morar com a sogra não foi das melhores, ela tinha lá suas qualidades, mas eu nunca que me acostumei com a mutação comportamental dela, e implorei ao falecido que resolvessemos logo aquela questão. Um belo dia ele chega com esse comentario:
- Olha, o nosso flat está quase pronto, poderemos morar lá em breve
- Que bom!
- É, mas minha mãe tambem está organizando o flat dela…
- O_O
Lembram que eu falei acima que o flat tinha três andares? Pois bem, quando o falecido começou a reorganizar o dele, mais do que depressa a mãe dele tambem organizou o andar dela e já estava dizendo que tambem se mudaria, e pro meu desespero, a irmã dele tambem estava com planos de concluir a construção do andar dela para se mudar tambem com o esposo e as duas filhas. Que coisa mais linda, nós ficariamos no 1º andar, a mãe dele no 2º e a irmã no 3º… Não deu tempo… antes disso viemos para o Brasil!
A brasileira que decide casar com um egípcio e acima de tudo vai morar no Egitão, deve ter em mente que lá no Egito ela tem que ser uma mulher a la Egitão, não adianta querer impor seus costumes brasileiros que a coisa não funciona, não adianta dizer que no Brasil é assim ou assado, no Brasil pode ser, mas a realidade agora é outra e é bom logo tendo em mente que terá que se adequar a ela. Se for morar aqui no Brasil nem precisa de preocupar tanto, quem deve se preocupar e muito é o pobre do egípcio que terá uma dificuldade de adaptação bem maior do que a brasileira teria lá no Egitão, mas aí já é outra história…
Essa questão das vestimentas sempre foi um ponto muito difícil na minha aculturação. O falecido até que era relax nisso, ele pegava no meu pé, mas nada que viesse a me sufocar, o problema, como sempre, estava na sociedade que cobrava a torto e a direito! Eu nunca fui de usar roupas escandalosas, sou evangélica e a denominação a qual faço parte preza muito por essa questão de não ser vulgar no vestir, preza tanto que em certas regiões do Brasil, essas regras chegam a beirar o absurdo, se por um lado essas regras aqui no Brasil me estressavam, por outro me prepararam ao longo dos anos para o que me esperava no Egitão, o problema é que lá tudo era três vezes mais do que aqui, o que me sufocava profundamente…
Não foi tão difícil lidar com os problemas religiosos no meu casamento misto, se dependesse deles, eu estaria casada até hoje e por incrível que pareça, feliz! Isso se não morasse no Egito é claro. O falecido era tranquilo, no Egito a família e a sociedade sutilmente exigia que eu não fosse cristã, mas aqui no Brasil o falecido me deixava livre para ser o que eu bem desejasse ser. Eu poderia ir a igreja sete dias na semana e ele não reclamava nada, chegou até a ir uma vez comigo e por incrível que pareça, me cobrar reverencia dentro da igreja (shame on me!), paralelo a isso ele era livre para ser muçulmano na intensidade que ele desejasse ser, cheguei a procurar uma mesquita para que ele não se sentisse tão deslocado, religiosamente falando, e até lembrava a ele as cinco orações diarias. A vida era traquila apesar dos detalhes que falei no post passado…
Apesar do enorme abismo cultural e religioso que nos separava, eu e o falecido nunca tivemos problemas em relação a essas questões. Religiosidade nunca foi o meu forte e graças a Deus que ele era um muçulmano tranquilo, pequeno detalhe que cooperou bastante para os bons momentos que tivemos ao longo da vida de casados. Eu não via muito objetivo lógico em dezenas de tradições religiosas que ele seguia, mas eu respeitava a devoção que ele tinha a elas, ele sonhava que eu largasse o cristianismo e fosse tão muçulmana quanto ele era, mas respeitava a minha decisão de permanecer no cristianismo, em relação a isso, viviamos em harmonia. Mas a nossa vida de casados não se resumia a nós dois, paralelo a isso eu tinha que lidar com uma sociedade islâmica e ele tinha que lidar com uma sociedade cristã, e aí o universo todo parece que conspirava, só não ao meu favor!
O amor é lindo e capaz de ultrapassar qualquer barreira de um casamento misto. É claro que pode haver um perfeito entendimento apesar da diferença religiosa, com certeza haverá o respeito mutuo e cada um será livre para seguir os preceitos que pareçam mais corretos. E quanto aos filhos?! Ah os filhos tomarão conhecimento dos dois caminhos e terão plena liberdade de seguir o caminho da sua escolha. Não, ninguém será obrigado a fazer nada, afinal de contas, as religiões respeitam o livre arbítrio e acima de tudo isso está o amor, que como eu falei acima, é lindo e capaz de transpor qualquer barreira de um casamento misto.






































