
Vivendo no mundo ocidental, é bem comum ouvir comentários do tipo: “Ohhh como a mulher árabe sofre”, e quando o assunto é modo de vestir-se então, parece que o mundo oriental é sinônimo de sofrimento e escravidão. Será?! Não tenho base teórica e muito menos prática para falar da mulher árabe englobando todos os países que seguem esta cultura, mas a temporada passada lá no Egitão me deu alguns fundamentos, pelo menos segundo a cultura árabe-egípcia, para pensar um tanto diferente da maioria ocidentalizada.
Apesar de não ser muçulmana, mas admito que frente a algumas situações no meu mundo ocidental, desejei que nossos conterrâneos, principalmente as mulheres, tivessem um comportamento semelhante ao das mulheres islâmicas que ví lá no Egitão. Lá a grande maioria é islâmica, obviamente que o estilo de vestir da maioria será compatível a cultura predominante, nos homens esse detalhe não é muito visível, já que basicamente homens de todo o mundo vestem-se da mesma forma: calça e camisa, pode acontecer de encontrar algum homem vestindo uma galabeya (vestido longo), ou usando um turbante, mas pelo menos lá onde eu morei (Cairo) isso não era muito comum, já nas mulheres, essa diferença entre ocidente e oriente é bem visível. A grande maioria está sempre bem composta, nada de pernas, braços ou bustos a amostra, a maioria usa o hijab (lenço que deixa só o rosto de fora) e um grupo menor usa o niqab (lenço que cobre todo o rosto, deixando apenas os olhos de fora). Essas que usam o niqab geralmente usam também luvas e sapatos sempre fechados, ví algumas que até na área dos olhos colocavam tipo uma telinha, a mulher fica simplesmente identificável…
A ex cunhada, muçulmana da gema, era bem religiosa e comentava que pretendia aderir ao uso do niqab, o falecido e o marido dela não eram muito de acordo, mas ela insistia, e quando eu perguntava o porque do uso daquela vestimenta, ela dizia que era por dedicação a Deus, e também porque ela queria que apenas os familiares (referindo-se aos homens) tivessem acesso a sua identidade… Bom, eu sempre achei o uso do niqab meio o extremo da modestia, mas enfim, gosto não se discute, crença religiosa se respeita, e além disso, meu objetivo hoje não é comentar sobre os tipos de roupas islâmicas…
O fato é que muitas brasileiras comentam sobre o suposto sofrimento e escravidão da mulher árabe por andar sempre tão “empacotada”. Antes de ter contato direto com esse mundo eu também pensava assim, até que me ví entre elas e posso ser sincera?! Estou pra ver mulheres mais livres e felizes do que as árabes, é claro que tem aquelas que são de uma família tradicional e daí certas ações são meio que imposição da família, mas isso aí são casos isolados, a maioria das mulheres lá no Egitão, e falo tanto em Egito porque foi onde tive um contato direto, são da forma que são por livre e espontânea vontade.
Sabe o legal lá no Egito? A sociedade não cobra um corpo escultural, as mulheres são valorizadas por suas qualidades como seres humanos e não como objeto de prazer alheio. Sempre tive problemas com o peso, nunca fui magra, mas Deus em sua grande misericórdia me deu uma altura que me proporciona um “escondimento” (acabei de inventar essa palavra!) dos pesos extras, porem o medo de que a gordura supere o disfarce da altura é tão grande que vivo lutando contra a balança, e como era de se esperar, todos ao redor cobram um corpo magro. Lá no Egito não era diferente, sendo que o tom da cobrança era outro. Aqui no Brasil todos diziam que eu tinha que emagrecer porque pessoas gordas são muito feias, e olhe que a minha gordura nunca foi nada de tão exorbitante assim. Lá no Egitão, o falecido e cia também pegavam no meu pé, mas diziam que eu tinha que emagrecer pra não ter a saúde comprometida. Percebem a diferença?!
Os ocidentais acham que a mulher egípcia é escrava e sofredora, só porque ela se veste de forma composta, mas esquece de ver que a mulher brasileira é escrava dos padrões de beleza ditados pela mídia, que faz da mulher um meio de vida, uma fonte de renda. Se alguma mulher acha isso bonito, me desculpa, mas eu odeio ser vista como um objeto, isso pra mim é a pior das escravidões. Aqui no Brasil eu vivo me preocupando com as gorduras extras, e quem me dera se fosse apenas por uma questão de saúde, a sociedade que eu vivo faz, até de forma inconsciente, que questões estéticas venham primeiro que tudo nessa vida. É claro que uma silhueta harmônica deixa qualquer mulher de qualquer parte do planeta mais feliz, o problema é que aqui no Brasil a grande maioria das mulheres vive em função dessa silhueta, e para obtê-la são capazes de fazer horrores. É isso que chamamos de liberdade?! Tenho lá minhas dúvidas…
Gostar disso:
Seja o primeiro a gostar disso post.