- Pra onde você vai? – perguntei -
- Vou lá no flat de Ahmed, ele me ligou pedindo que eu fosse lá
- [...] (olhar pegando fogo)
- Volto já…
- [...] (cabeça em chamas)
Pelo menos da ultima vez que o tal Ahmed tinha ido ao flat onde estávamos, ficou bem entendido que a presença dele não era bem vinda, ele só não tinha entendido ainda que a ida do falecido ao flat dele não era bem aceita da mesma forma. Hoje eu penso em tudo isso e morro de pena da mulher do Ahmed, perdí uma boa chance de fazer amizade com uma pessoa super doce (nem sei como já que eu não falava árabe e nem ela falava inglês), mas o fato é que a insensatez do marido dela conseguia me tirar do sério. Enfim, enquanto o falecido estava lá no flat de Ahmed (um andar acima do nosso), vestí a roupa de Isaura e fui colocar as bagunças do flat em ordem. Uns quarenta minutos depois o falecido voltou…
- Eles mandaram lembranças pra você
- [...]
- Ouviu o que eu disse?
- Ouví…
- Você não vai perguntar por eles?
- N-Ã-O-!
- Tá bom, esquece…
- JÁ ESQUECÍ !
Pois é, eu tinha que me lembrar que Ahmed estava acima do meu teto (literalmente) e que a qualquer momento a campainha poderia tocar e ele estaria sorridente, pronto para estragar a sonhada lua-de-mel, a melhor opção era manter distancia… Naquele dia ficamos o dia quase todo no flat, a noite sugerí que fôssemos dar uma andada pela orla, essa área de Alexandria é linda, cheia de fontes e muros cuidadosamente decorados. Por volta das 21 horas saimos de casa, o falecido ainda estava arrumando alguma coisa lá no quarto, quando eu abro a porta da sala e dou de cara com Ahmed e cia que vinham descendo as escadas…
“Cristo Redentor!!! Tô começando a ver assombração…” – pensei comigo mesma
Nao sei se eles chegaram a me ver, mas mais que depressa fechei a porta e fiquei por alí na sala esperando o falecido, como se nada houvesse acontecido…
- Que foi que houve? – perguntou ele -
- Nada não, porque?
- Não sei, você tá com uma cara estranha…
- Nada, é impressão sua… vamos?!
Parece piada, mas quando ele abriu a porta, a “assombração” estava lá na frente, como se estivesse esperando ele sair, dei um “good night” meia boca e descí as escadas a ponto de bala. Ainda parece piada, mas quando eu olho… a assombração entrou no carro tambem!!!!
- Posso saber que palhaçada é essa? – perguntei em meio tom ao falecido -
- Vou dar uma carona a eles até o centro
- [...] (olhar de metralhadora prontinha pra mandar a vítima pro outro mundo)
Chegando no centro foi um deus nos acuda pra arrumar um lugar pra estacionar o carro, e eu cá com meus botões tentando entender porque ele tinha que estacionar, já que ele iria só deixar Ahmed lá com a família e teoricamente, depois disso iríamos passear na orla pra ver as fontes e as paredes decoradas, lembram?! Mas daí eu imaginei que lá no Egito não era permitido parar em qualquer canto, então fiquei caladinha pra não me precipitar, só esperando o que ele iria fazer. Quando ele estacionou, fechou os vidros do carro e desceu…
- Você vai ficar aí?! – perguntou ele -
- Nós não acertamos pra ir pela orla pra tirar umas fotos nas fontes e naquelas paredes…?!
- Foi, mas já que estamos aqui vamos dar uma volta, depois a gente vai…
Quase que eu pergunto a ele se não tinha nenhum advogado alí por perto que pudesse fazer o divorcio e dalí mesmo eu já ia pro aeroporto pegar o primeiro voo pro Brasil, mas como ele me pediu de forma educada, e ainda era muito cedo pra pensar em divorcio, eu resolvi ceder (de novo!). Fomos andar pelo centro da cidade e como eu odiei tudo aquilo, eu nunca gostei de andar de loja em loja, muito menos em locais cheios demais, onde as pessoas ficam batendo umas nas outras e competindo por um pedaço de chão. Depois de uma hora andando eu aviso alguma coisa verde e amarela poucos metros a frente, era uma cafeteria brasileira!!! Meu orgulho não deixou, mas quase que eu agradecí a Ahmed por ter tido a brilhante ideia de pedir carona ao falecido, pelo menos eu tinha tido a chance de achar algo brasileiro lá no Egitão.
- OLHA LÁ!!! OLHA LÁ!!! - comecei a gritar feito uma doida -
- Que foi?!
- É uma cafeteria brasileira! AHHHH EU QUERO IR PRA LÁ!!!!
Nunca fui fã de café, nunca parei em nenhum estabelecimento aqui no Brasil pra tomar uma gota de café que fosse, mas dias depois de estar longe da pátria amada, idolatrada, salve, salve, eu estava a brasileira mais patriota que você pudesse imaginar, e dando atenção a qualquer cosia que fosse do Brasil, e ao ver essa cafeteria queria ir pra lá de todo jeito, tomar café, saber se tinha algum brasileiro por lá, falar português, enfim, matar a saudade! Ao ver a loja eu já fui atravessando a rua em direção a ela, quando percebi que Ahmed chamou o falecido, e ele me puxou de volta. Óbvio que eu não entendí literalmente o que eles conversaram, mas pela expressão facial e “braçal” de Ahmed, eu deduzi que ele falou que aquele lugar não era interessante pra ir…
- Mas pra porque você quer ir alí? É só uma cafeteria! – disse o falecido -
- Pra você é só uma cafeteria, mas pra mim é uma cafeteria BRASILEIRA
Falei isso e já fui atravessando a rua, entendí quando ele pediu pra Ahmed esperar, e voces acreditam que Ahmed ficou lá do outro lado da rua de braços cruzados esperando que saíssemos lá da loja?! e pior ainda, o falecido ficou o tempo todo me apressando pra sairmos de lá, não ficamos nem dez minutos lá dentro, saí com o humor pra lá de Bagdá e depois daí sabe pra onde fomos?! Pra outra rua cheia de lojas dos dois lados e andar por mais uma hora a procura de produtos de interesse exclusivo de Ahmed, até parecia que o falecido era o motorista dele. Quando se deram conta do quanto tinham andado, perceberam que estavam longe demais do carro e daí decidiram pegar um onibus pra voltar. O ônibus parecia um trenzinho, tinha três repartições, e eu fiquei extremamente aborrecida porque ao entrar em uma dessas só tinha eu e a esposa de Ahmed de mulher, o restante era mais ou menos uns 15 homens, que ficaram nos olhando como se tivessemos acabado de aterrissar de Marte. Daqui a pouco sobe um rapazinho e fala alguma coisaa no ouvido de Ahmed que cochicha no ouvido do falecido.
- Vamos pro outro onibus! – disse o falecido -
- Mas porque se aqui tem lugar disponivel?
- Nesse aqui mulher não pode ir
- Argh!
Pegamos o carro e voltamos pro flat, jurava que o falecido iria deixar Ahmed e cia lá e finalmente iriamos pro nosso passeio. Chegando lá ele estaciona o carro e desce, pensei que ele iria pegar alguma coisa no flat, então fiquei lá sentada esperando. Ele pegou uns pacotes de Ahmed na mala, veio na janela do meu lado e…
- Você não vai sair dai?
- Sair daqui?! Mas não combinamos de passear na orla?!
- Foi, mas eu estou tão cansado, podemos fazer isso amanhã?
Saí do carro sem falar o ponto de um “i”, subí pro apartamento, tomei um banho e fui dormir…
[...]
Amanhã tem mais… 
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