Depois de passar alguns anos em um curso de inglês, a gente acaba utopicamente se convencendo de que somos capazes de nos virar sem dificuldades em qualquer parte desse mundão de meu Deus. Eu havia passado bons anos da minha vida em uma dedicação sem fim ao aprendizado da língua inglesa, no começo, unicamente para fazer os gostos da minha mãe, mas depois, por puro prazer, e depois de colecionar boas notas, certificados de incentivo e elogio de colegas e professores, eu dei uma pausa na minha odisseia de estudante da lingua inglesa, jurando que ía arrasar lá fora, até o dia que eu coloquei meus pés na Inglaterra…
Era a primeira vez que eu fazia uma viagem internacional sozinha, vida de filha única não é tão fácil quanto parece, tudo vai muito bem quando a familhança está por perto, mas quando chega o dia que temos que andar com os proprios pés, parece que o mundo vai entrar em parafusos! Mas um dia eu tinha que dar meu grito de independencia, então, vamos lá! Eu estava preocupada com tudo, menos com a comunicação. Lógico, eu tinha passado a minha vida inteira estudando inglês britânico, e falar inglês na Inglaterra seria a coisa mais simples do mundo, certo?! Errado!!
Lá estava eu no aeroporto de Londres e tinha pouco mais de três horas para pegar o outro vôo que me traria de volta a pátria amada. Ainda dentro do outro vôo eu já fazia meus planos: seguir a multidão! Com certeza alguém em meio aquela centena de pessoas iria para o mesmo destino que eu, certo?! I don’t think so… Desembarcamos em Londres e seguí meus planos: a multidão! E como eu estava feliz em perceber que todos iam para o mesmo lugar, até que dois caminhos separa o caminho até então único. Uma seta indicava a saída do aeroporto e a outra indicava o caminho que levaria aos vôos de conexão. Deixei que as pessoas passassem na minha frente, na esperança que alguem seguisse aquela bendita seta da conexão, só que para o meu desespero, TODOS seguiram para o caminho que os levariam para fora do aerporto
Tudo bem, meu medo era ter que me virar sozinha, mas pelo menos eu (achava que) me garantia no inglês, então agora era colocar a vergonha, medo e afins de lado e meter a cara, do contrario eu perderia o próximo voo e ai tudo seria mais complicado.
Não tinha uma alma bondosa pra me dar informação, mas em compensação tinha uma seta a cada centimetro e lá vai eu fazendo o que elas me mandavam, o que me fez achar que eu estava abalando o bangu linguistico inglês, já que eu estava entendendo tudo sem nem pensar em usar dicionario. Eu jurava que aquele caminho sem fim me levaria a porta da aeronava, mas pro meu desespero me levou a um hall onde tinha umas seis entradas. “Agora deu certinho! Como que eu vou saber qual dessas entradas é a minha?!” – Pensei cá com meus botões – Depois de respirar fundo e contar até dez, percebí que tinha um senhor da cara invocada em um balcão de informações…
- Boa tarde. Eu não sou daqui e estou um pouco perdida. Tenho que pegar o vôo numero tal e não sei como chegar lá, o senhor poderia me ajudar?
Me dirigí ao senhor com uma performance linguistica digna de uma semana de elogio do meu professor de inglês. Mostrei a ele o meu e-ticket e tranquilamente fiquei esperando a resposta
- Rhaid i chi fynd drwy y drws o’ch blaen, gymryd bws a fydd yn mynd â chi i hedfan – Respondeu o senhor -
Gente! Mas que diaxo de inglês era aquele que aquele homem estava falando?! Será que o meu professor de inglês tinha dado alguma aula extra sem me avisar ou aquele cara estava tirando onda com a minha cara?!
- I’m sorry… I didn’t understand you, could you repeat slowly?!
Eu não tinha entendido um grama do que ele tinha falado, então o jeito foi pedir que ele repetisse devagar a frase. Sei que escutamos pelos ouvidos, mas dessa vez eu abrí bem até os olhos e a boca pra ver se escutava melhor…
- Sim, claro! Você tem que ir por esta porta a sua frente e pegar um ônibus que te levará até o terminal onde está o vôo que você tem que pegar…
- Ok, thank you very much! – respondí -
Alguém me explica porque eu nunca tive dificuldade em entender meu professor de inglês?! Conseguia entendê-lo como se o inglês fosse de verdade a minha segunda lingua, só que frente a um nativo, o inglês dele a primeira vez me pareceu ser da Birmania. Tudo bem que meu professor sempre falou compassado e pronunciando cada fonema, enquanto o tio londrino falava a velocidade da luz, anyway… sobreviví!
Finalmente lá estava eu dentro do avião rumo a minha terra adorada, idolatrada, salve, salve! Sabia que um longo caminho me esperava, tinha ainda que aturar alguns bons pares de horas alí sentada naquela poltrona estreita, mas tentei não focalizar muito no relogio nem no mapa na tela logo a minha frente. Uma senhora havia sentado ao meu lado e não demorou muito pra que ela começasse a puxar assunto comigo. Coincidentemente ela havia vindo do Egito também e logo começou com aquelas conversas encantadoras de turista recem chegado. Segundo a concepção dela, o Egito era o melhor lugar do mundo, e ela até cogitava a possibilidade de morar por lá, claro né, tem algo mais glamuroso do que morar na Terra dos Faraós?! Bom, a experiencia comigo não havia sido muito boa, por isso mesmo que eu estava voltando pra casa, mas claro que eu não ía fazer uma velhinha infeliz né, deixei que ela ficasse empolgada, achando que o Egito era um país de primeiro mundo e que a solução dos problemas dela estaria em morar com os descendentes de Faraó.
Fila do aeroporto de Londres. Lá estava eu com o humor na unha do dedo midinho e já pensando nas infindáveis horas que me esperavam até que eu chegasse em casa. Tem coisa pior do que ficar mais de oito horas dentro de um avião e pra completar, a noite, quando nada se enxerga da janela além de um abismo negro sem fim?! De dia ainda temos a chance de ver as nuvens, montanhas, rios, mares, cidades… mas naquele dia não teria nada pra passar tempo ao lado da janela, pra completar, eu não estava com um pingo de sono, a viagem prometia uma monotonia sem fim…









































