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Mantendo a privacidade


Quem me acompanha desde os primeiros posts do blog, sabe que passei uma temporada compartilhando minhas experiências nas Terras dos Faraós, em especial as que tinham alguma ligação com minha vida ao lado do ex habiby, ou como costumava chamar: falecido. Foram dezenas de posts que renderam milhares de visitas e centenas de comentários. Histórias que serviram de alerta para uns e diversão para outros, até mesmo pra mim que ficava rindo com as minhas próprias trapalhadas.

Naquela época tudo era muito recente, as mágoas estavam a flor da pele e de alguma forma eu tinha que colocar tudo pra fora, e pelo jeito encontrei essa oportunidade na tela do computador, e comecei a escrever sobre detalhes pessoais, alguns bem íntimos, e sem restrição alguma fiz da minha vida um marcador de livro em uma página aberta… Foi tudo válido e mais ainda por saber que pude usar todos os meus erros do passado pra tentar fazer um futuro diferente, não apenas para mim, mas também pra muitas pessoas que leram os inúmeros relatos postados aqui, mas cheguei a conclusão que chegou a hora de tirar esse marcador e guardar o livro…

Comunico a vocês que a grande maioria dos posts relacionados a minha vida pessoal no Egito não estão mais na rede. Agradeço de coração a todos que leram e comentaram as postagens. Está tudo bem guardado aqui comigo.

Relacionamento Virtual: Sonhos e delírios


Recebí a seguinte mensagem:

“Ola meu nome é R***** e estou vivendo a pior fase da minha vida, por este motivo estou apelando para todos os lados, tenho fe em Deus que vou encontrar um anjo que possa me ajudar, vou contar um pouco do que esta acontecendo! Sou brasileira e me apaixonei por um homem do Egito, mas infelizmente pela vontade de Deus somos pobres e não temos condições de fazer esta viagem para nos casamos, só tem uma forma dele vir ao Brasil: se eu conseguir um contrato de trabalho para ele aqui. Mesmo assim esta muito difícil, por Deus se tem alguém que posso nos ajuda que faça isso! O nosso sofrimento aumenta cada dia mais em nome de Jesus nos ajude!!”

Já que a pessoa diz estar apelando pra todos os lados, penso que ela não se sentiria chateada em ter o pedido divulgado aqui no blog. Então, eu não posso ajudar com o contrato de emprego, mas resolví ajudar com algumas palavras…

Sempre que recebo algo desse tipo logo lembro da minha amiga Wally que frequentemente diz que não devemos dar conselhos, se estes não são pedidos, ela está pingando de razão, afinal, no auge da paixão a última coisa que é levada em consideração são conselhos, mas confesso que em certos casos a língua fica coçando e acabo expondo minha opinião, mesmo sabendo que na prática dificilmente a coisa vai mudar…

Eu também me apaixonei por um egípcio, conheço uma penca de mulheres que também se apaixonaram por outros egípcios e sei muito bem o que uma mulher apaixonada é capaz de fazer, mas infelizmente a vida não é colorida pra toda mulher que se apaixona por um egípcio, brasileiro, alemão, chinês ou whatever, e o numero das que quebram a cara por causa dessa louca paixão é bem maior do que o número daquelas que conseguem encontrar a felicidade que procuravam, então por maior que seja a paixão ou a purpurina do sonho, a realidade tem que ser levada em consideração.

O amor é lindo, mas ele não faz mágica e muito menos paga as contas, isso é fato e nem adianta achar que vai descer um anjo na carruagem de fogo pra mudar a situação, porque ele não vai. A pessoa da mensagem acima precisa que alguém arrume um contrato de trabalho para um estrangeiro aqui no Brasil, humm aí eu me pergunto: Ele fala português? Caso não fale português, será que as qualificações profissionais dele são capazes de garantir uma vaga em alguma multinacional? Ela mesma diz que ambos são pobres, então quem vai sustentar o começo de vida do egípcio, caso ele venha pro Brasil? Tá, ele supostamente viria com emprego garantido, mas será que o salario oferecido seria suficiente para todas as responsabilidades que ele, como chefe de familia, teria que arcar? Casamento, além de flores e estrelas brilhantes que enfeitam o céu, também é conta de água, luz, gás, telefone e tals pra pagar, e nem adianta chegar no banco cheio de amor pra dar que amor não paga as contas não…

Não, não quero destruir os sonhos das pessoas e muito menos matar as esperanças, minha única intenção é fazer com que as pessoas vejam que não da pra viver só de amor e de sonhos. Devemos sonhar sim, desde que esse sonho não atrapalhe o desenvolvimento lógico das diversas áreas da vida, e até mesmo nos sonhos, devemos usar um pouco de realidade, delírios nunca nos levarão a nada, e além disso, insistir em certos sonhos, é preparar a vida para futuros pesadelos…

A brazucada e os casamentos virtuais


Esses dias eu estava cá com meus botões pensando nos inúmeros casos que conheço de relacionamento amoroso entre egípcios e estrangeiras, e vou contar a vocês, é incrível perceber como na maioria dos casos é sempre a mulher que tem que abrir mão das coisas, seja do seu conforto, seja da sua liberdade, seja da sua religião, seja até mesmo das economias conseguidas a custo de muito suor. Vocês conhecem a comunidade EGITO – DO NILO AO DESERTO? Não?! Então clica aqui e faz uma visitinha, garanto que não vão se arrepender.

Então, o pessoal lá na comunidade estava comentando sobre esses relacionamentos e surgiu esse comentario: “Porque tem tanto egípcio na internet procurando casamento?”, e logo eu lembrei dos pensamentos que eu estava compartilhando com meus botões. Porque é que a mulherada tem sempre que se sacrificar? Se o egípcio vai casar com uma egípcia, ele tem que dar apartamento do jeito que ela quer, tem que bancar do bom e do melhor e ainda tem aquela paradinha do dote, aí o egípcio encontra uma brasileira carente vagando por essa imensidão virtual, diz um ‘I love you’ aqui, um ‘bahebak’ alí e pronto, o casamento já está marcado, e daí a brasileira faz das tripas coração pra comprar a passagem pra ir pro Egitão conhecer o phophis e pior que isso, ela já vai certinha pra casar com ele, não sabe nem se vai se adaptar a cultura local, se o cara ronca ou tem mau hálito, o amor é lindo e ponto final.

Vocês tem noção do tamanho do risco?! Se tudo der certo, graças a Deus, mas e se não der?! O egípcio estará no conforto da sua pátria, e quanto a brasileira? Ela estará longe de tudo que lhe é familiar e agora com a dificil tarefa de voltar pra casa pra reconstruir a vida. A mulher abre mão da sua propria religião, conheço casos de mulheres, inclusive esta que vos escreve, que abriram mão até do seu conforto financeiro, e tudo em nome de um grande “amor”…  Aiii gente, até onde isso vale a pena?!  Não é que eu duvide da possibilidade de felicidade conjulgal por essas vias, mas depois de passar por certas situações, a gente chega a conclusão que prevenir ainda é a melhor opção. Poxa, se a mulher pode se sacrificar pra conhecer o bonitão da pirâmide, porque eles também não podem fazer uma forcinha, tirar a poupança da cadeira, pegar um vôo e vir aqui no Brasil conhecer a brasileira? Porque só ela que tem que se arriscar?

E o que mais me deixa de cabelos em pé em tudo isso é quando encontro alguma doida varrida corajosa que larga tudo aqui pra casar com o bonitão da pirâmide que financeiramente muito mal consegue manter a si mesmo, e pior ainda é quando ela já vai certinha de casar pra tentar trazer o cara pra tentar a vida aqui no Brasil. Tudo bem que o amor é lindo, mas é bom lembrar que ele não paga as contas…

:: Casamento Misto: Problemas Culturais – Parte III ::


A brasileira que decide casar com um egípcio e acima de tudo vai morar no Egitão, deve ter em mente que lá no Egito ela tem que ser uma mulher a la Egitão, não adianta querer impor seus costumes brasileiros que a coisa não funciona, não adianta dizer que no Brasil é assim ou assado, no Brasil pode ser, mas a realidade agora é outra e é bom logo tendo em mente que terá que se adequar a ela. Se for morar aqui no Brasil nem precisa de preocupar tanto, quem deve se preocupar e muito é o pobre do egípcio que terá uma dificuldade de adaptação bem maior do que a brasileira teria lá no Egitão, mas aí já é outra história…

Bom, mas como disse a minha colega de Blog Anita, eu não havia evoluido o suficiente para mudar da água pro vinho, de forma tão instantanea assim, não imaginava que essa coisa de morar fora do Brasilzão pudesse ser tão complicada, e levando em consideração que a família do falecido era bem tradicional, essa complicação só tendia a crescer a cada dia…

Eu sabia que o contato entre homens e mulheres no Egitão era bem restrito, mas eu não sabia que em alguns casos esse “restrito” beirava o inacessível, e levei um choque quando frente a uma visita masculina, lá onde morávamos, eu fui “convidada” a ficar dentro do quarto, até que a visita fosse embora. Fato que se repetiu no flat de uma brasileira amiga minha, quando em uma visita que fui fazer a ela, a cunhada dela, que estava na sala conversando conosco, foi “convidada” a se retirar, quando o falecido ligou avisando que ía me buscar… Desculpem a minha intolerancia, mas da até a impressão que homem estranho, mesmo que esse estranho não seja tão literal, é sinonimo de perigo absoluto, e por isso as mulheres devem estar protegidas… Ah que saudade que eu tinha da patria amada, onde eu podia abraçar e beijar meus amigos homens e ter a consciencia de que tudo aquilo é amizade sincera, mas adiantaria alguma coisa eu dizer que no Brasil era assim ou assado?!…

Sempre desejei ter filhos, mas levando em consideração que filhos é MUITA responsabilidade, tentei convencer o falecido de que deveríamos tê-los quando tivéssemos a vida mais organizada, não sabíamos ainda onde que moraríamos definitivamente, mal tínhamos “organizado” o flat, já tínhamos planos de vir morar no Brasil, enfim… não era um momento muito propício para pensar em colocar filhos no mundo, pro meu alívio, ele acabou aceitando. Pro meu desespero ví que essa não era a realidade alí ao meu redor. Quando fomos pra lua de mel, a sogra quase que me pede pra voltar com um exame de gravidez positivo pra dar de presente a ela. Visitamos um casal que tinha pouco mais de um ano de casados, o album de casamento ainda tinha cheirinho de foto recem saida da loja, e eles já estavam lá com um bebezinho nos braços. O melhor amigo do falecido tinha casado ainda quando estávamos em contato virtual, agora a esposa dele estava com a barriga saindo pela boca e ele ainda reclamava que demorou demais pra engravidar… Adiantaria eu explicar pra eles que aqui no Brasil os casais não pensam em encomendar o bebe na noite de nupcias?! A ex sogra quase que derruba a piramide de Kefren, pedra por pedra, quando eu disse que só teria filhos em pelo menos uns três anos…

O flat tinha uma varanda e eu adorava ficar debruçada vendo o movimento lá embaixo, tinha uma padaria pertinho e eu achava o maximo ficar olhando o cotidiano das tias egipcias que brigavam por um lugar na “fila” pra pegar o pão. As unicas ocasiões em que eu via mulheres nas varandas era quando elas iam estender roupa, pegar as roupas secas ou limpar a varanda, e geralmente cobertas até a alma, só via o rosto e nada mais, fora isso eu era a única que ficava bancando o guarda noturno (ou diurno). O falecido as vezes pedia pra que eu não ficasse tanto tempo na varanda, enquanto a sogra já fechava a cara e se entocava na cozinha. Varanda não é lugar de mulher, sabe como é né, pode haver algum par de olhos masculino observando a feminilidade alheia. Adiantaria eu dizer que no Brasilzão a mulherada coloca até cadeirinhas na varanda ou nos calçadões da vida pra bater um papo?!… Não é tambem que a mulher no Egito tenha que ficar trancada dentro de casa, mas no Egito onde eu morei, elas só não deveriam ficar muito expostas ao público…

Todo casal, misto ou não, gosta de contato físico, concordam?! Não estou falando de beijos, abraços e afins, mas de simplesmente estar juntos… Certo dia fomos ao flat novo para ver como que estava as obras lá, o contrapeso (a sogra) foi junto e enquanto ela organizava não sei o que lá, eu e o falecido ficamos sentados em um banco improvisado e a anta apaixonada aqui, inocentemente entrelaçou o braço no braço do falecido e ficou lá com cara de paisagem olhando pras paredes cheias de cimento do flat. Quando o contrapeso viu aquela cena perguntou que pouca vergonha era aquela, logo o falecido se afastou de mim e explicou que não era legal contato fisico em publico e principalmente na frente dos mais velhos. Gente, mas o que era um braço entrelaçado e uma cabeça no ombro?! Pro Brasilzão, a coisa mais simples e fofinha que existe, pro contrapeso egípcio, uma pouca vergonha. Adiantaria eu explicar que no Brasil era diferente?!…

Aí eu lembro de uma frase que Anita escreveu tambem, essa coisa de que o amor supera qualquer barreira é mentira. Concordo plenamente! Dependendo da barreira, chega uma hora que o amor cansa, e as vezes é melhor deixar a barreira lá quietinha na dela, e prosseguir a vida por outro caminho. Conhece a frase: “Não adianta dar murros em ponta de faca” ? Essa frase se encaixa perfeitamente em muitas situações vivenciadas em um casamento entre pessoas de culturas diferentes…

O sono me pegou!… Amanhã tem mais ;)

:: Casamento Misto: Problemas Culturais – Parte II ::


Essa questão das vestimentas sempre foi um ponto muito difícil na minha aculturação. O falecido até que era relax nisso, ele pegava no meu pé, mas nada que viesse a me sufocar, o problema, como sempre, estava na sociedade que cobrava a torto e a direito! Eu nunca fui de usar roupas escandalosas, sou evangélica e a denominação a qual faço parte preza muito por essa questão de não ser vulgar no vestir, preza tanto que em certas regiões do Brasil, essas regras chegam a beirar o absurdo, se por um lado essas regras aqui no Brasil me estressavam, por outro me prepararam ao longo dos anos para o que me esperava no Egitão, o problema é que lá tudo era três vezes mais do que aqui, o que me sufocava profundamente…

Certa vez fui a uma clínica médica com a ex cunhada e depois de alguns dias vendo apenas mulheres COMPLETAMENTE vestidas, só com mãos e rosto de fora, algumas nem o rosto dava pra ver, fiquei super feliz em ver uma mulher de seus trinta anos mais ou menos, vestida a la brasileira: uma calça comprida marrom, uma bota de salto alto, uma blusa de frio bem composta, mas que dava formato e leveza ao corpo, cabelos loiros bem cuidados e soltos, e uma maquiagem em um tom que combinava com a cor da roupa. Fiquei tão feliz em ver aquela mulher, bom saber que nem tudo alí era abayas (vestidos), hijab (veu muçulmano que cobre o cabelo e o pescoço) ou niqab (veu que cobre toda a cabeça, rosto e pescoço, deixando apenas os olhos aparecendo), eu já não me sentia uma estranha no ninho. Pensei em comentar com a ex cunhadinha, mas nem deu tempo, ela se virou pra mim e disse:

- Isso é um absurdo! Onde que vamos chegar?!

Procurei os quatro cantos da clinica pra ver se via algo errado, olhei as cenas que passavam na TV, o que cada paciente fazia e não encontrei nada de absurdo…

- O que foi que houve?
– Olha aquela mulher…
– Que mulher?
– Aquela lá sem o hijab

Era a mulher que eu acabei de descrever acima…

- Humm o que ela tem?
– Você ainda pergunta?! Olha a roupa dela… Isso é uma pouca vergonha…

Acabou minha esperança de usar modelito a la Brasil no Egitão, qualquer coisa semelhante, seria visto como pouca vergonha pela sociedade islâmica e pela familia do falecido… Juro que a mulher estava bem vestida, minha tia seria capaz de usar uma roupa daquela pra ir a igreja, entraria e sairia sem problema algum… Acorda!! Estamos falando de Egito e no Egito aquilo era vulgar, e eu tinha duas escolhas: respeitar a cultura local e me adequar a ela ou tentar impor a cultura brasileira e ser vista com maus olhos, com muito esforço, escolhí a primeira. Não tinha roupa vulgar, pelo menos não para os padrões brasileiros, mas me despedi de algumas blusas com decotes e ajustes censurados, e passei a usar o que aqui minhas amigas chamariam de vestido improvisado: blusas grandes, com decotes minúsculos, que me deixavam como a terra no principio de tudo: sem forma. Minha salvação era os casacos, os jogava por cima e saia por alí, tentando não pensar nas blusas que haviam ficado guardadas na mala :(

Tudo bem que isso é uma questão pequena, com o tempo a gente até que se acostuma e em certas ocasiões chega até a achar que a rigidez egípcia no vestir é algo positivo, mas ter esse hábito não é nada fácil, ainda mais em um país islâmico onde alguns grupos religiosos meio que exageram na modestia. Como eu falei acima, não tive problemas com o falecido em relação a isso, mas o mundo ao redor cobrava demais, qualquer coisa que acentuasse a beleza feminina em público era vista como vulgar, dentro de casa, estando eu e ele sozinhos, eu poderia andar até vestida a la madrinha de bateria de escola de samba, mas na rua, eu tinha que ser o mais imperceptível possível.

Isso me fez lembrar agora uma certa brasileira que casou com um egípcio mais rígido, e ao vê-la de salto alto foi logo tratando de proibí-la de usar aquele acessório, segundo ele, o salto alto chamava a atenção do homens alheios e ele não admitiria uma coisa dessas com a esposa dele. Coitada, ela que era vidrada em salto alto e afins, teve que escolher entre a sua vaidade e seu casamento… Complicado, não?!

Tudo bem, ninguem vai acabar um casamento porque na cultura do outro aquele modelito é visto como imoral, mesmo na nossa pátria sendo a coisa mais simples do mundo, para essas situações é necessário adaptação, o problema é que nem sempre estamos preparados pra isso e essa preparação, na maioria das vezes, é desgastante, principalmente se ser cabeça dura faz parte do nosso comportamento, mas se a outra pessoa faz por onde merecer, vale a pena o esforço, e assim eu me esforcei, até onde o falecido fez valer a pena…

Amanhã tem mais…

:: Casamento Misto: Problemas religiosos ::


Apesar do enorme abismo cultural e religioso que nos separava, eu e o falecido nunca tivemos problemas em relação a essas questões. Religiosidade nunca foi o meu forte e graças a Deus que ele era um muçulmano tranquilo, pequeno detalhe que cooperou bastante para os bons momentos que tivemos ao longo da vida de casados. Eu não via muito objetivo lógico em dezenas de tradições religiosas que ele seguia, mas eu respeitava a devoção que ele tinha a elas, ele sonhava que eu largasse o cristianismo e fosse tão muçulmana quanto ele era, mas respeitava a minha decisão de permanecer no cristianismo, em relação a isso, viviamos em harmonia. Mas a nossa vida de casados não se resumia a nós dois, paralelo a isso eu tinha que lidar com uma sociedade islâmica e ele tinha que lidar com uma sociedade cristã, e aí o universo todo parece que conspirava, só não ao meu favor!

No Egito em que eu viví, a grande maioria das pessoas valorizava a religião acima de qualquer outra coisa neste planeta, fato que colocou o falecido em calças curtas. Ele nunca sequer perguntou se eu tinha algum pensamento remoto em me converter ao islamismo, mas eu sabia que ele era cobrado por isso. As pessoas não estavam muito interessadas no meu nome, mas de cara já queriam saber se eu era muçulmana, e quando ele dizia que eu era cristã, as reações não eram muito acolhedoras. Eles aceitavam, mas era como se falassem: “Tá bom, ela é cristã, mas você tem a missão de trazê-la para o nosso grupo”, o que não foi muito diferente com ele quando viemos morar no Brasil… A mãe dele tinha uma aversão tão grande a tudo que não fosse islâmico que chegou ao ponto de me proibir categoricamente de usar um pingente em formato de cruz que eu tinha, isso sem contar nas diversas vezes em que a irmã dele tentou me evangelizar e me convencer de que o islamismo era a única religião correta no mundo. Psiu! Não estou dizendo que é assim em todo o Egito tá, nada do que eu falo aqui deve ser tomado como regra, algumas pessoas tem sorte, outras não, no meu caso com o Egito, fiquei no segundo grupo… A pressão sobre ele começou a ficar tão intensa que quando as pessoas perguntavam a ele qual era a minha religião, ele dizia que eu era muçulmana, fato que me irritava profundamente e me fazia questionar qual era o problema em ser cristã naquele país! Cristãos e muçulmanos dividem o mesmo espaço geográfico, dizem que vivem bem, só não sei afirmar de forma geral na prática até que ponto vai a literalidade desse “bem”, comigo foi tudo muito parcial. Gostaria muito de ter a opinião de um copta (cristão do Egito), um evangélico ou católico que tenha morado lá… de repente o problema foi só comigo…

Mas os problemas religiosos não pararam por ai… Infelizmente o link com essas informações foram perdidos em uma visita de um Cavalo de Troia ao meu antigo computador, mas na epoca eu tinha encontrado por aqui algumas informações sobre leis no Egito, e tinha lido lá que a esposa cristã não tinha os mesmos direitos que a esposa muçulmana, claro que eu achei que aquilo era alguma pegadinha ou palavras de alguem mal informado e nem dei muita importancia. Ía perguntar ao falecido a respeito, mas em meio a tanta coisa pra fazer, eu acabei esquecendo. Até que certo dia fui dar uma olhada na certidão de casamento:

- Geeente mas porque é que tem que colocar a religião no documento?!  Qual o interesse do governo em saber se a pessoa é muçulmana, cristã, judia, hinduista, ateia…?!  – Perguntei ao falecido -
– É que dependendo da religião a pessoa terá 100% dos direitos constitucionais. A esposa muçulmana tem todos esses direitos, as que seguem outra religião tem algumas restrições…
– Mas como assim?! A religião de cada um é algo que não interessa ao governo, que tem a ver leis do país com a escolha religiosa de cada um?!
– Mas é assim…

Eu havia esquecido que no Egito o Estado e a religião andam de mãos dadas, não da pra saber onde que termina um e começa o outro, e já bem consciente de que nem eu e nem o falecido mudaríamos a realidade do país, e que eu havia casado com o falecido e não com o governo egípcio, achei melhor nem tocar mais no assunto, mesmo achando tudo aquilo um preconceito religioso sem fim. Ahh! Tambem não conseguia aceitar o fato de que o homem muçulmano podia casar com uma cristã ou uma judia, mas a mulher muçulmana não podia casar com um homem judeu ou um cristão. Porque será hein?!…

Alguns meses depois lá estávamos nós falando sobre filhos, e como era de se esperar, não demorou muito para que o assunto religião fosse acoplado a conversa:

- Meus filhos serão muçulmanos! – Falou o falecido -
– W-H-A-T-?

Essa parte não estava no script, se não me falhe a memoria, poucos meses atras ele havia dito que a educação religiosa dos filhos seria condicionada ao sexo delas, se fosse uma menina seria educada no cristianismo e se fosse um menino seria educado no islamismo. É, mas agora ele tinha mudado de ideia, argumentava que o cristianismo do Brasil era uma bagunça e que ele não permitiria que os filhos dele fossem criados dessa forma, como se o estilo de vida de um cristão brasileiro fosse o mesmo estilo de todos os outros milhares de cristãos espalhados pelo nosso território… mas meus argumentos de nada valiam, filho de muçulmano TINHA que ser muçulmano e ponto final. Nada contra ter filhos educados no islamismo, desde que eu tivesse o mesmo direito de apresentá-los ao cristianismo. Esquece! Esses direitos só existiam na minha cabeça brasileira. Esse era o único tema ligado a religião que colocava o falecido e eu em pé de guerra. Esses filhos nunca vieram… graças a Deus!!

… dos problemas de um casamento misto, esses foram dos menores. Apesar de tudo, nos entendiamos, era só não tocar na questão da religião que os filhos seguiriam :D

E quanto aos problemas culturais?! Ahh só amanhã agora … Aguardem! ;)

:: Casamento Misto: Sentindo na pele a realidade ::


Já havia vivido esse dilema em casa antes mesmo de ter pensado em casar. Meu pai era católico e minha mãe evangélica, apesar da diferença religiosa, a convivencia até que era “harmônica”. Meu pai era o que eu chamaria de católico não praticante, minha mãe era que era ‘evangélica beata’ e as vezes ficava estressada quando meu pai achava que não precisava toda aquela devoção. Para evitar atritos ela deixava de frequentar a igreja na intensidade que ela desejava. Meu pai tambem não gostava muito daquelas visitas religiosas que de vez em quando apareciam aqui em casa e normalmente cantavam hinos ou faziam orações em um tom de voz um pouco mais elevado, na verdade ele não era muito simpatizante dos “crentes”, como ele chamava, respeitava mas não queria muito contato.

Nunca houve imposição quanto a minha educação religiosa, pro meu pai era indiferente se eu seguisse o catolicismo ou o protestantismo, já minha mãe queria a todo custo que eu fosse tão religiosa quanto ela era. Eu podia seguir os ideais deixados por Lutero, mas quando o assunto era frequentar uma igreja, o tempo meio que fechava. Até hoje eu não entendo a razão disso, mas ele não deixava que eu tivesse muito contato com o pessoal da igreja, fato que deixava minha mãe insatisfeita, porque ela queria que eu fosse bem envolvida nas atividades de lá, mas em nome da boa convivencia no lar, ela relevava. Nunca presenciei nenhuma briga deles dois por causa de religião, mas sei que minha mãe deixou de fazer na vida religiosa muitas coisas que ela gostaria porque de uma forma ou de outra isso aborreceria meu pai. Se por um lado ela o agradava, por outro lado desagradava a si mesma, e assim foi por longos 15 anos, até que por consequencia do uso do cigarro meu pai veio a falecer e aí ela ficou livre para ser a barata de igreja que ela sempre sonhou :P

Virei gente grande e resolvi casar! Ele, um muçulmano de berço que morava no Egitão, eu, uma evangélica de berço que morava no Brasilzão. Wow! Quanta diferença pra uma só casal!! Ganhei atestado internacional de loucura pelos amigos mais próximos e conselhos ao uso de remedios de tarja preta pelos mais distantes. Todos viam que aquilo não era uma boa ideia, mas como nós não poderiamos ser diferentes dos casais apaixonados do planeta terra, éramos consciente sim do abismo que nos separava, mas tínhamos certeza que o “amor” construiria uma ponte e no final tudo daria certo, as pessoas era que não entendiam nada de amor verdadeiro!

- Você vai casar com um muçulmano?!
– Vou sim, porque?!
– Mas você é evangélica…
– Tá e daí?! Ele é um muçulmano, mas é tão humano quanto qualquer evangélico do planeta, e o que vale é o carater e não a religião!
– Mas nos países árabes os cristãos não tem a mesma liberdade que, por exemplo, tem aqui no Brasil…
– Ahh que nada, cada um segue a sua religião, ninguem é obrigado a se converter não
– E os filhos?!

[...]

Esse era o tipo de conversa que já havia virado uma constante na minha vida desde o dia que eu havia resolvido assumir publicamente que eu me casaria com um muçulmano. No começo eu vivia perdendo a paciencia, principalmente quando os menos informados diziam que todo muçulmano é terrorista, coisa que pra quem tem um pouco mais de acesso ao mundo islâmico, sabe que é uma baita mentira, mas com o tempo eu aprendi a desligar o botão pra esse tipo de comentario e focar a vida nos preparativos da nova vida a la egípcia. Me preocupava a questão dos filhos, obviamente eu queria imortalizar meus ideais religiosos, e a ideia era fazer isso atraves dos meus filhos, mas eu tambem sabia que o falecido, habibi na época, tambem tinha esse mesmo objetivo…

- Já pensou quando tivermos filhos?! – Comentei meio sem jeito -
– No que?
– Religião…
– Já sim…
– E aí…?!
– Podemos fazer um acordo. Se for um menino eu ensino no islamismo, e se for uma menina, você ensina na sua religião…
– Tá bom então. De acordo!

Tá vendo! Agora as pessoas vinham com aquele papo de que não podia dar certo casamento entre um muçulmano e uma cristã… Ele foi tão tolerante comigo que deixou até que eu criasse os filhos na minha religião! Que bonitinho!!

A princípio a ideia era morar no Egito por uns bons anos, o falecido tinha um flat próprio, só precisava os moveis e uns pequenos detalhes que logo seriam resolvidos. Morar na terra dos Faraós era algo bem glamuroso pra mim, beirei uma síncope quando soube que moraria a poucos minutos do Museu do Cairo, menos de uma hora e eu estava em Giza e de frente as pirâmides. Wow!! Simplesmente surreal!! Mas apesar disso me preocupava a minha realidade do cotidiano, principalmente no que diz respeito a religião, nunca fui barata de igreja, mas eu queria ter a garantia de que independente disso eu seria livre pra ser o que eu quizesse ser…

- Tem igreja aí no Cairo? – Perguntei ao falecido -
– Não muitas, mas tem sim
– E se eu quiser frequetar alguma?
– Qual é o problema? Aqui você será livre igual aí no Brasil
– Jura?! Você me levaria em uma igreja?
– Claro!

A cada dia mais eu me certificava de que aquela loucura tinha sido o que de mais insano eu tinha feito em toda minha vida. A diferença cultural e religiosa existiam sim, mas na prática a toleracia e respeito transbordavam. Eu tinha medo da família, principalmente da mãe do falecido, a típica sogra sargentão, mas ele sempre me garantia que todos já sabiam que eu era cristã e que tinham me aceitado da forma que eu era, e que ninguem iria me obrigar a deixar de seguir minha religião para seguir a deles. Que bonitinho!!

O casamento era dos mistos, um dos mais complexos, mas o amor é lindo não é mesmo?! Tínhamos certeza de que seríamos felizes e a religião jamais seria motivo de serios problemas em nossas vidas. Casamos certos dos felizes paa sempre, mas não demorou muito pra que a realidade se mostrasse bem diferente dos planos dos nossos sonhos…

Amanhã vocês saberão porque…  Encontro marcado amanhã neste mesmo endereço!

Até mais! ;)

:: As estatísticas tinham razão! ::


-  O que?! Você vai casar?!
– Vou sim, encontrei um príncipe encantado, um homem gentil, lindo, maravilhoso que me ama e que vai me fazer a pessoa mais feliz desse mundo…
– Mas você é tão nova… Faz isso não… Faz tua vida, estuda mais, conquista a tua independencia financeira, depois tu pensa em casar
– O que? Que adianta ter independencia financeira, curriculo cheio de bons cursos, falar não sei quantos idiomas, mas não ter com quem dividir tudo isso, ficar velha… e sozinha…
– … casamento não é algo tão bom quanto parece… tudo é uma questão de sorte…
– Ah sai pra lá, porque o teu deu errado, todos os outros tem que dar tambem é?!
– O meu vai ser diferente, voce vai ver…

Essa foi uma das ultimas conversas que tive antes de largar todos os meus planos profissionais em nome do que até então eu achava ser um amor sem fim. Pois é, larguei T-U-D-O. Tinha acabado de concluir a graduação e já estava de olho em uma pós graduação, sem contar nos planos de um curso no Canadá e dependendo do desenrolar dos fatos, uma chance de emprego lá tambem. Estava começando a construir uma carreira profissional que prometia sucesso, mas de repente troquei todos os meus planos por aquilo que eu achava que me traria a tão procurada felicidade. Deixei a vida profissional do primeiro mundo pela vida de dona de casa no “pais das maravilhas”. Deixei meu emprego, meus amigos, meus estudos, minha família, deixei até meus pets idolatrados que eu não deixaria por nada nesse mundo, mas deixei…

Na minha adolescencia e inicio de juventude eu sonhava com o casamento, entre tantas amigas, tinha uma que era a minha confidente e passavamos horas tricotando sobre as possibilidades amorosas que o futuro prossivelmente nos reservara, ela não era muito adepta a casamento, mas aturava meus comentarios sem fim sobre principe encantado e planos para o futuro. Na minha santa inocencia eu não conseguia entender porque grande parte dos casais que eu conhecia não era feliz, e porque os casados sempre aconselhavam os solteiros a não casar tão novos e aproveitar mais a vida. Aquilo era insano, pra mim o casamento era a fonte de felicidade, as pessoas que eram azaradas e não sabiam fazer por onde encontrar essa felicidade, mas eu poderia jurar de pes juntos que comigo a realidade seria diferente e que quando eu casasse teria um casamento que serviria de exemplo para toda raça humana. Sonhos de uma adolescente a caminho da juventude…

A adolescencia já era lembrança do passado, agora na fase adulta já pensava com mais seriedade na possibilidade de casar. Encontrei o principe encantado de uma forma surreal (em outro post contarei os detalhes desse encontro) e depois de um ano e um mês de contato já estávamos dividindo o mesmo teto.

Perdí a conta de quantos conselhos recebi, me encorajando a focar a minha vida em mim mesma ao invez de largar tudo por causa de um casamento, ainda mais este tipo de casamento (em outro post contarei as divergencias). A cada conselho eu eliminava uma amizade, alem de perfeccionista sou tambem cabeça dura, comportamento que estou tentando eliminar aos poucos, é bom aceitar que nem sempre temos razão, mas naquela época eu estava no meu mais alto nivel de dona da razão e levando em consideração o livre arbitrio, nem Jesus Cristo me convenceria o contrário. Geeeente, o falecido era o homem dos sonhos, sera que as pessoas não enxergavam isso?! Enxergavam sim, a transição entre sonho e realidade. Quem está de longe tem uma visão mais ampla. Hoje acredito nisso…

No inicio, como em todo inicio, a vida de casada seguia os planos dos meus sonhos de adolescencia, mas não demorou muito para que as estatísticas do IBGE batessem a minha porta e eu passasse a entender e aceitar os conselhos dos mais velhos no ramo. As brigas sem nenhum motivo lógico aparente, começaram a surgir, eu achava que tinha o controle da situação nas mãos e que com o diálogo tudo voltaria ao normal, afinal, o casamento era a fonte da felicidade e não era qualquer adversidade besta que me faria desistir de sonhar. A estatistica do IBGE insistia em bater a minha porta e de dentro de casa eu insistia em não fazer parte dos seus numeros, até que um dia ela entrou, me fazendo sentir na pele que a cada quatro casamentos, um acaba em divorcio…

:: O primeiro almoço depois de casados ::


O falecido sempre teve um grande problema quando o assunto era comemorar algum acontecimento, ele tinha uma tendencia de comemorar em bando aquilo que a principio era pra ser comemorado a dois. Desde o início de tudo decidimos que não faríamos festa de casamento, as comemorações seriam feitas entre eu e ele, esse tinha sido o acerto no mundo virtual e agora lá estava eu no mundo real, esperando que tudo ocorresse como planejado. Depois de uma manhã inteira na parte burocrática do casamento eu planejava ir a algum local com ele para comemorar o acontecimento, cá com meus botões eu imaginei que os dois amigos dele que foram as testemunhas iriam para as suas respectivas casas e enfim poderíamos estas a sós. Um dos amigos foi embora, enquando o outro nos acompanhou, pensei que ele pegaria apenas uma carona até o ponto de ônibus mais próximo até que percebí que o falecido estava indo em direção oposta e nada do amigo descer do carro. O cara era gente boa, um dos poucos amigos legais que o falecido tinha, mas mesmo assim eu não pretendia dividir aquele momento com ele, só que no decorrer do caminho eu ví que eu teria que fazer isso. O falecido começou a combinar com ele onde que iriamos almoçar, obviamente eu fiquei p da vida porque ele deveria combinar isso comigo, não é mesmo?! Só mantive a calma primeiro porque eu tinha simpatizado com o tal amigo, como falei antes, ele era gente boa e segundo porque ele tentava traduzir pra mim tudo que se passava ao redor, percebia quando eu estava por fora do mundo e tentava me colocar nele. Ele acabou percebendo que o falecido tinha me deixado em segundo plano, e pediu que eu sugerisse um local para fazermos um lanche. Coisa linda pra cara do falecido né!

Eu estava com curiosidade de saber como era uma pizza no Egitão, então escolhí ir a Pizza Hut. A pizza não foi lá das melhores, apesar da sua boa aparência, o encontro tambem não foi lá dos mais romanticos, o amigo do falecido falava mais que eu e ele juntos, ainda bem que ele era muito bem humorado, o que acabou sendo a graça do encontro. Ficamos pouco mais de uma hora nesse local e voltamos pra casa, eu ainda estava em mente que a noite o falecido teria aprontado alguma surpresa pra mim, um jantar em um daqueles navios chiquetérrimos as margens do Nilo quem sabe… Que ilusão!! Foi outra a surpresa que me esperou quando a noite chegou…

[...]

Confiram o cardápio daquele dia…

... Antes

... Antes

... Depois

... Depois

:: Assinando o contrato de casamento ::


Depois de todo processo na embaixada brasileira fomos pro lado egípcio da coisa pra tentar casar, esquecí o nome do local, na época eu estava ocupada demais pra decorar nomes, mas era algo do tipo forum ou cartório, por aí… Meu primeiro choque nesse dia foi perceber que o contrato de casamento era preenchido manualmente. Putzzz ninguem informou ao pessoal dalí que existia computador e impressora não?! Pra complicar, a mulher que preencheu o documento tinha uma letra pior do que criança de jardim da infancia, e em árabe então, vocês já imaginam a garrancheira que foi… O clima lá tambem não era nada dos melhores, estava mais pra assinar documento de sentença de morte do que de casamento, aqueles funcionários dariam certinho pra trabalhar em delegacia naqueles bairros pesados do Rio de Janeiro…

Voltando ao casamento, teria que levar duas testemunhas, cá com meus botões eu pensava que essas testemunhas eram casais, como é aqui no Brasil, mas não, o falecido levou dois amigos dele. Enquanto passamos pela primeira sala pra preencher os papeis, os amigos ficaram lá no hall esperando, juntamente com outras dezenas de estrangeiras e suas testemunhas, que estavam alí pra casar tambem. Na primeira etapa me assustei com a forma que a mulher lá preencheu o documento, eu não entendia nada de árabe, mas sabia diferenciar uma letra legível para um monte de garranchos, e aquilo alí era dos piores… Ela preencheu cinco folhas, as folhas mais pareciam aqueles curriculum vitae que antigamente a gente comprava nas lojinhas de variedades, voces lembram?

Fomos pra uma outra sala e sentamos frente a um homem com cara de mau que começou a falar com o falecido…

- Ele está pedindo teu passaporte
– Ele não fala inglês não?!
– Não
– Geeeente mas que absurdo, como que o camarada trabalha num orgão onde lida diretamente com estrangeiros e ele não fala inglês?!
– Em casa a gente vê isso, da o passaporte pra ele…

Tá bom, eu estava exigindo demais para os padrões do Egitão. Dei o passaporte pro cara de mau e fiquei lá com cara de paisagem esperando os próximos episódios. Ele escreveu pra lá, escreveu pra lá, folheou meu passaporte, me fez algumas perguntas bobas, voltou a escrever e depois me deu um papel lá pra eu assinar.

- Ele ta mandando você assinar aqui
– Assinar o que!?
– Esse documento…
– Assinar? Mas como que eu vou assinar uma coisa que eu não sei o que eu estou assinando?! Ah mas não vou assinar mesmo!! Fala pra ele me dizer o que está escrito ai que eu assino, sem saber o que ta ai eu não assino nem na China…

O falecido falou lá com ele que respondeu com uma voz alterada…

- Ele está perguntando se eu já não falei a você sobre as leis egípcias
– Fala pra ele que isso não é da conta dele, e que eu só vou assinar essa porcaria aqui quando eu souber o que está escrito (estava tudo em árabe)

Obviamente que o falecido não traduziu ao pé da letra (acho né!), mas o fato é que o cara mau lá teve que explicar item por item e esperar que o falecido traduzisse pra mim para que então eu assinasse. Assinei (antes nem tivesse assinado!). Fomos pra uma outra sala e me sentí a analfabeta! Lá vem o cara com aquelas buchinhas de carimbo…

- Coloca o dedo aí… – disse o falecido -
– Fala pra ele que eu sei assinar…
– Assinar o que?
– Assinar o documento! Lá no Brasil os analfabetos que assinam assim com o dedão, manda o tiozinho aí ler nos meus documentos meu grau de estudo e ele vai ver que eu tenho capacidade de assinar meu nome, se quiser faço até uma forcinha e assino em árabe…
- Lá no Brasil, aqui é diferente…

Não tinha escapatória, tive que sujar minhas mãos com aquela tinta preta e “assinar” em cinco páginas, tanto eu quanto o falecido, depois os dois amigos dele tambem assinaram e teoricamente, eu já estava casada, mas ainda tinha que esperar quase duas semanas pra pegar o documento…