:: Mulheres pra lá! Homens pra cá! ::

A campainha de casa tocou, pela pequena abertura na porta percebí que era dois amigos do falecido. Eu queria fazer amizade com as pessoas da vizinhança, me sentir mais inserida naquela nova realidade. Já sabia algumas palavrinhas em árabe e queria mostrar pra todo mundo meus dotes linguisticos, achava tambem que seria uma maneira de deixar o falecido orgulhoso de mim, afinal eu estava fazendo um esforço faraônico pra aprender aquela lingua dele tão difícil. Já fui preparando algumas frases decoradas pra não fazer feio na frente dos amigos dele. Eu já sabia que o contato entre homens e mulheres no Egito era o mais básico possível, só não contava com certos extremos…

Vai lá pro quarto! – Disse o falecido –
– Mas porque? Eu quero conhecer os teus amigos…
– Vai lá pro quarto!!
– Mas eu não quero ir pro quarto!! Eu quero fazer amizade com as pessoas
– Eles são homens estranhos pra você…
– Tá e o que tem? Posso conhece-los e fazer amizade…
– Aqui não funciona assim, vai lá pro quarto e só sai quando eles forem embora

A mãe dele já tinha se entocado no outro quarto já a muito tempo, só eu que ainda estava lá tentando entender porque raios esses amigos dele não podiam me ver. Fiquei lá trancada no quarto igual leão em jaula de zoológico. Só vim perceber depois que quando o homem não tem intimidade com a família ele não pode ter acesso as mulheres da casa…

Outro dia tinhamos marcado pra sair e eu tinha me arrumado primeiro que ele, era de tarde, horario em que o povo fazia fila na padaria alí perto e eu achava legal ficar na varanda observando a forma como eles se comportavam, apesar de quase ter uma síncope sempre que via alguma tiazinha egipcia colocar o pão pra esfriar no capô do carro do vizinho, lembram?

Ei vai pra onde? – perguntou o falecido –
– Tô alí na varanda olhando o movimento enquanto voce se arruma…
– Não, fica lá na sala..
– Não, eu vou lá pra varanda, gosto de ver o pessoal lá pegando os pães…
– Fica lá na sala…
– EU NÃO QUERO FICAR NA SALA!! Qual o problema que tem na varanda?
– Você já viu alguma mulher nas varandas aqui na rua?
– Não
– Pois é, varanda não é lugar de mulher ficar, e alem do mais a rua está cheia de homens que vão ficar olhando pra você…

A verdade é que eu NUNCA ví uma sombra de uma mulher sequer na varanda daquela rua, e até que via alguns vultos que estendiam as roupas e logo entravam, sem contar que pra ir a varanda elas tinham que colocar o hijab ou niqab (veus muçulmanos), tinham que ser o mais imperceptivel possível. Na ocasião eu estava com uma blusa amarela e vermelha, com meio quilo de maquiagem na cara e cabelos ao vento, e para os padrões das mulheres da rua, uma aparição minha na varanda com aquele look, daria mais IBOPE que Gisele Bündchen na Fashion Week. Pra evitar confusão e tentar ingressar na aculturação, fiquei na sala andando de um lado para o outro por 20 minutos até que o falecido se arrumou e saimos.

Em outra ocasião eu estava meio entediada de tudo e pedí ao falecido que me levasse ao flat de uma amiga minha, eu ficaria lá enquanto ele iria fazer umas coisas dele e na volta me pegaria. Estavamos na sala jogando conversa fora: eu, minha amiga, o marido e a cunhada dela. Nisso o falecido liga avisando que estava vindo me buscar, quando ele tocou a campainha, o marido da minha amiga fez um sinal pra a irmã dele que se levantou do sofá e foi pro quarto. Lembram da historinha que eu contei logo no começo desse post? Pois é, foi a mesma situação. O falecido era um homem estranho para a irmã do amigo dele, logo eles não podiam ter contato. Ela ficou lá pra dentro trancada no quarto e eu fui embora sem ter como me despedir dela…

Outro dia o falecido foi convidado pra um noivado. Noivado no Egitão é sinonimo de FESTA. O negócio é animado e meio! Passamos primeiro na casa do noivo, onde estava acontecendo um almoço. Todos alí eram estranhos pra mim e pra completar, ninguem falava inglês…

Você tem que ficar lá naquele quarto – disse o falecido –
– Mas eu não conheço ninguem aqui, deixa eu ficar contigo…
– Não pode, aqui as mulheres ficam separadas dos homens…
– Genteee mas eu vou ficar perdida alí, ninguem fala inglês e meu árabe resume-se em dez palavras decoradas
– Mas elas são legais, você vai gostar…

Os homens estavam na sala e as mulheres lá trancadas dentro de um quarto, a essas alturas eu estava começando a ficar com trauma de quarto. O falecido falou lá alguma coisa pra a mãe do noivo, que me puxou pelo braço lá pra dentro do quarto. As mulheres eram uma alegria só, conversavam, riam, comiam, enquanto isso lá estava eu sentada no canto, alheia a tudo. Não tinha muito que fazer a não ser ficar olhando pra elas e tentar imaginar o que elas estavam falando e fazer de conta que eu estava amando estar alí. Olhava pela brechinha da porta e via o falecido lá na sala em meio aos homens na maior alegria e fumaça de cigarro.

Ao sairmos da casa do noivo fomos pra cidade da noiva que ficava em Giza (bairro das pirâmides). Ao chegar lá procurei um lugar pra me sentar perto do falecido, as pessoas ali tambem eram desconhecidas e pra variar, não falavam inglês e eu não queria repetir a dose de ficar com cara de paisagem em meio a infindáveis conversas cruzadas em árabe…

Tá vendo aquelas cadeiras alí na frente? – Perguntou o falecido
– Tô vendo sim…
– Você pode ficar alí…
– Tá bom, vamos!
– Não, eu vou ficar aqui…
– Mas porque?
– Porque os homens não podem ficar sentados perto das mulheres aqui não

Ai meu Deus! Tudo de novo! A mulherada era super simpática, mas como fazer amizade se ninguem falava ingles e eu não falava árabe? Fiquei lá sentada com cara de paisagem apenas retribuindo os sorrisos que as mulheres me davam, quando vinham conversar em árabe eu dizia: “I don’t speak Arabic, do you speak English?!”, e daí elas respondiam em árabe e eu ficava capaz de falar até birmanês de tanto desespero.

Outro dia fui com a irmã do falecido a um salão de beleza, chegando lá fomos informadas que a dona do salão tinha dado uma saída e quem estava atendendo era um rapaz. A irmã do falecido então desistiu de fazer a depilação que ía fazer no rosto. Fiquei curiosa e perguntei porque, ao que ela me respondeu que jamais iria deixar que um homen estranho tocasse na sua pele, religiosamente isso não era correto. Perguntei o que ela faria então se fosse a um pais como o Brasil por exemplo, e um homem estranho a cumprimentasse com um aperto de mão…

Eu apertaria a mão dele, mas com algum lenço ou coisa do tipo que não deixasse que a pele dele entrasse em contato com a minha…

[…]

Wow! Que misturada de situações eu fiz aqui, mas acho que deu pra vocês perceberem que amizade entre homem e mulher no Egito não existe né, sem contar que em público mulher tem que ser o mais imperceptível possível. Nunca conseguí entender a dinâmica da comunicação interpessoal no Egito, as regras do meio onde eu vivi eram complexas demais pra minha pobre mente ocidentalizada…

Ai que sono… amanhã prometo fazer um post mais caprichado… A essas alturas da madruga já não consigo raciocinar muito bem. Agradeço a todos que estão acompanhando a minha Odisseia faraônica, e deixo essa ‘fotinha’ pra vocês…

Noivado que fomos em Giza. Animação garantida...

Noivado que fomos em Giza. Animação garantida...

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9 Respostas para “:: Mulheres pra lá! Homens pra cá! ::

  1. NO momento não,mas nunca se sabe o que vem pela frente,o tempo de relacionamento on line já passa de anos então quem sabe….

  2. é to até imaginando,vou em janeiro,e vou prá uma cidade bem pequena ,um lugar que eles nem tem endereço,fica em Qena,depois de Luxor,já imaginei minha situação,ai to ficando assustada,mas a vontade é maior,não desisto dessa viagem não.Mas continua,to adorando muito ler o que vc descreve.

  3. aiaia fui direta e reta com o Mohe contei desse detalhe e qdo ele me falou: Si, homem não fica perto de vc não! se vier em casa só membros da família. ai eu falei olha vamos ter q negociar, pq aqui é bemmm diferente, não q venham pessoas aqui, nem eu gosto de gente em casa, mas se tem algum aniver aqui de um dos meninos e o pai de um amigo deles estiver junto, se eu nao estiver presente no mínimo vao me chamar de mal educada. e ele : ok entao depois qdo for a hora gente vê ok?
    e eu depois não pode ir pensando no assunto, se eu vou tb me adaptar vc tb tem e ele : ok. aiaiaia

    • Estando aqui no Brasil eles se adaptam a força (depois conto como foi a vida do falecido aqui em relação a isso), mas estando lá eles vão fazer de tudo pra que nós entremos da dança, e é até o mais correto né, no final das contas. Agora aqui no Brasil querer que nós mulheres tenhamos o mesmo comportamento das mulheres lá no Egito já é demais…

  4. Quero que vc chegue logo na parte que conta sobre vocês aqui no Brasil e nosso costume de beijar os homens…Como é que o ‘falecido’ se comportava nessa hora…

    Ah, lembrei de um fato! quando eu estava em Luxor e o tio mala(aquele papagaio de pirata) chegou à tarde e eles começaram a conversar na sala, eu fui gentilmente ‘convidada’ a fazer uma salada de frutas…

    grrumm…fiquei com ódio nessa hora!

    • Pois é, eu sempre percebia lá que lugar de mulher era na cozinha, e quando a casa destava cheia de homem então, elas nem davam as caras na sala. Eu só tive “permissão” pra ficar junto com quatro amigos dele, que pelo visto era tão amigos que pareciam ser da familia, mas ainda assim o meu contato com eles era o mínimo possível, eles nem me olhavam direto… O_O

  5. Ai meu Deus, como perguntar isso de homem para cá e mulher pra lá? aiaiaiaia

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