:: Casamento Misto: Sentindo na pele a realidade ::

Já havia vivido esse dilema em casa antes mesmo de ter pensado em casar. Meu pai era católico e minha mãe evangélica, apesar da diferença religiosa, a convivencia até que era “harmônica”. Meu pai era o que eu chamaria de católico não praticante, minha mãe era que era ‘evangélica beata’ e as vezes ficava estressada quando meu pai achava que não precisava toda aquela devoção. Para evitar atritos ela deixava de frequentar a igreja na intensidade que ela desejava. Meu pai tambem não gostava muito daquelas visitas religiosas que de vez em quando apareciam aqui em casa e normalmente cantavam hinos ou faziam orações em um tom de voz um pouco mais elevado, na verdade ele não era muito simpatizante dos “crentes”, como ele chamava, respeitava mas não queria muito contato.

Nunca houve imposição quanto a minha educação religiosa, pro meu pai era indiferente se eu seguisse o catolicismo ou o protestantismo, já minha mãe queria a todo custo que eu fosse tão religiosa quanto ela era. Eu podia seguir os ideais deixados por Lutero, mas quando o assunto era frequentar uma igreja, o tempo meio que fechava. Até hoje eu não entendo a razão disso, mas ele não deixava que eu tivesse muito contato com o pessoal da igreja, fato que deixava minha mãe insatisfeita, porque ela queria que eu fosse bem envolvida nas atividades de lá, mas em nome da boa convivencia no lar, ela relevava. Nunca presenciei nenhuma briga deles dois por causa de religião, mas sei que minha mãe deixou de fazer na vida religiosa muitas coisas que ela gostaria porque de uma forma ou de outra isso aborreceria meu pai. Se por um lado ela o agradava, por outro lado desagradava a si mesma, e assim foi por longos 15 anos, até que por consequencia do uso do cigarro meu pai veio a falecer e aí ela ficou livre para ser a barata de igreja que ela sempre sonhou 😛

Virei gente grande e resolvi casar! Ele, um muçulmano de berço que morava no Egitão, eu, uma evangélica de berço que morava no Brasilzão. Wow! Quanta diferença pra uma só casal!! Ganhei atestado internacional de loucura pelos amigos mais próximos e conselhos ao uso de remedios de tarja preta pelos mais distantes. Todos viam que aquilo não era uma boa ideia, mas como nós não poderiamos ser diferentes dos casais apaixonados do planeta terra, éramos consciente sim do abismo que nos separava, mas tínhamos certeza que o “amor” construiria uma ponte e no final tudo daria certo, as pessoas era que não entendiam nada de amor verdadeiro!

Você vai casar com um muçulmano?!
– Vou sim, porque?!
– Mas você é evangélica…
– Tá e daí?! Ele é um muçulmano, mas é tão humano quanto qualquer evangélico do planeta, e o que vale é o carater e não a religião!
– Mas nos países árabes os cristãos não tem a mesma liberdade que, por exemplo, tem aqui no Brasil…
– Ahh que nada, cada um segue a sua religião, ninguem é obrigado a se converter não
– E os filhos?!

[…]

Esse era o tipo de conversa que já havia virado uma constante na minha vida desde o dia que eu havia resolvido assumir publicamente que eu me casaria com um muçulmano. No começo eu vivia perdendo a paciencia, principalmente quando os menos informados diziam que todo muçulmano é terrorista, coisa que pra quem tem um pouco mais de acesso ao mundo islâmico, sabe que é uma baita mentira, mas com o tempo eu aprendi a desligar o botão pra esse tipo de comentario e focar a vida nos preparativos da nova vida a la egípcia. Me preocupava a questão dos filhos, obviamente eu queria imortalizar meus ideais religiosos, e a ideia era fazer isso atraves dos meus filhos, mas eu tambem sabia que o falecido, habibi na época, tambem tinha esse mesmo objetivo…

Já pensou quando tivermos filhos?! – Comentei meio sem jeito –
– No que?
– Religião…
– Já sim…
– E aí…?!
– Podemos fazer um acordo. Se for um menino eu ensino no islamismo, e se for uma menina, você ensina na sua religião…
– Tá bom então. De acordo!

Tá vendo! Agora as pessoas vinham com aquele papo de que não podia dar certo casamento entre um muçulmano e uma cristã… Ele foi tão tolerante comigo que deixou até que eu criasse os filhos na minha religião! Que bonitinho!!

A princípio a ideia era morar no Egito por uns bons anos, o falecido tinha um flat próprio, só precisava os moveis e uns pequenos detalhes que logo seriam resolvidos. Morar na terra dos Faraós era algo bem glamuroso pra mim, beirei uma síncope quando soube que moraria a poucos minutos do Museu do Cairo, menos de uma hora e eu estava em Giza e de frente as pirâmides. Wow!! Simplesmente surreal!! Mas apesar disso me preocupava a minha realidade do cotidiano, principalmente no que diz respeito a religião, nunca fui barata de igreja, mas eu queria ter a garantia de que independente disso eu seria livre pra ser o que eu quizesse ser…

Tem igreja aí no Cairo? – Perguntei ao falecido –
– Não muitas, mas tem sim
– E se eu quiser frequetar alguma?
– Qual é o problema? Aqui você será livre igual aí no Brasil
– Jura?! Você me levaria em uma igreja?
– Claro!

A cada dia mais eu me certificava de que aquela loucura tinha sido o que de mais insano eu tinha feito em toda minha vida. A diferença cultural e religiosa existiam sim, mas na prática a toleracia e respeito transbordavam. Eu tinha medo da família, principalmente da mãe do falecido, a típica sogra sargentão, mas ele sempre me garantia que todos já sabiam que eu era cristã e que tinham me aceitado da forma que eu era, e que ninguem iria me obrigar a deixar de seguir minha religião para seguir a deles. Que bonitinho!!

O casamento era dos mistos, um dos mais complexos, mas o amor é lindo não é mesmo?! Tínhamos certeza de que seríamos felizes e a religião jamais seria motivo de serios problemas em nossas vidas. Casamos certos dos felizes paa sempre, mas não demorou muito pra que a realidade se mostrasse bem diferente dos planos dos nossos sonhos…

Amanhã vocês saberão porque…  Encontro marcado amanhã neste mesmo endereço!

Até mais! 😉

Anúncios

8 Respostas para “:: Casamento Misto: Sentindo na pele a realidade ::

  1. To curiosissima para a segunda parte!

    • Atualmente eu estou sempre postando novos post nas primeiras horas de cada dia, então entre 00:00 e 01:00 é quase de certeza que tem coisa nova por aqui 🙂

  2. Ohhh mulher, bondade tua 😉

  3. Hummm fiquei curiosa sobre o final dessa historia, tmb estou escrevendo sobre casamento entre pessoas de religiões diferentes.
    Quem se ilude pensando que diferenças culturais e religiosas não pesam no dia-a-dia está enganado, eu acho que os casais devem mesmo buscar a felicidade, ficarem juntos mas não a qualquer preço. Num casamento “normal”, já é necessário se abrir mão de muita coisa e os dois lados sederem pra que de certo. Imagine então num casamento misto, sempre terá uma lado que abrirá mão de mais coisas que o outro, impossível que não seja assim, e quem nao tem certeza daquilo que está preparado para abandonar possivelmente se decepcionará.

    • Oi Anita!! 😉

      A cada dia fico mais feliz em ver pessoas novas por aqui… Seja muito bem vinda viu!! 🙂

      Pois é, as diferenças religiosas e culturais pesam muito mais do que possamos imaginar, é claro que no auge da paixão ninguem nem vai pensar nisso, e ainda que pense, tem a certeza de que tudo pode ser resolvido com muito amor. Vamos ser sinceras?! Não resolve! No começo tudo é flores sim, mas a hora da renuncia chega pra um ou pra outro lado e não há dialogo que dê jeito, ou abre mão de muita coisa ou vai viver um casamento beirando as portas infernais, e quando se trata de ser casamentos entre religiões e culturas TÃO diferentes, como foi no meu caso (cristianismo & islamismo) é que a coisa pega pra valer! 😦

  4. hum….

  5. Hehe…claro que todos os casais apaixonados acham que a sua história vai dar certo…se assim não fosse não estariam apaixonados, não é mesmo?
    No entanto gostaria de dizer algo…quem acredita que casamentos mistos são fáceis e tudo cor de rosa estão enganados. Eu nunca pensei isso! Vão haver discussões, vai haver pontos em que as pessoas estarão em desacordo. O problema não é as pessoas terem religiões diferentes…o problema é pensarem que tudo se resolve por si mesmo e achar que é tudo lindinho e fácil. é a falta de informação sobre a religião e a cultura do outro. E é o pais e a comunidade onde se mora.
    Fico à espera do resto da história! Bom fim de semana!
    😉

    • Pois é Camila, o problema em sí não está na diferença religiosa e cultural não, se assim fosse não teríamos tantas separações e divórcios aqui no Brasil, já que todos são do mesmo pais, cultura e na maioria dos casos, religião, era pra se esperar lares felizes, mas infelizmente essa não é a realidade absoluta, nem aqui no Brasil e nem em outros países desse mundão a fora, o que nos faz acreditar que o problema está nas pessoas. Seria possível sim haver felicidade em um casamento misto, se as pessoas respeitassem o limite do outro, só que em muitos casos acontece que cada um puxa a sardinha pro seu lado e no final das contas lá vai mais um casal pras estatísticas dos “infelizes para sempre”. No caso de um casamento de um cristão com um muçulmano, o desligar de botão tem que viver no automático para ambos os lados, principalmente se a mulher for cristã e morar no país islâmico, a mulher tem que ter em mente em letras Arial Black, negrito, sublinhado,e vermelho intenso que ela vai ter que abrir mão de muita coisa, se é que ela quer ser feliz, e não é só na religião não, é muito mais na cultura. Ainda que o marido seja maleável e tals, mas isso não quer dizer que a família dele será ou que a sociedade será, dentro da sua casa você pode ser quem você quer ser, mas fora dela… tem que desligar o botão pra muita coisa… 😦

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s