:: Casamento Misto: Problemas Culturais – Parte I ::

Não foi tão difícil lidar com os problemas religiosos no meu casamento misto, se dependesse deles, eu estaria casada até hoje e por incrível que pareça, feliz! Isso se não morasse no Egito é claro. O falecido era tranquilo, no Egito a família e a sociedade sutilmente exigia que eu não fosse cristã, mas aqui no Brasil o falecido me deixava livre para ser o que eu bem desejasse ser. Eu poderia ir a igreja sete dias na semana e ele não reclamava nada, chegou até a ir uma vez comigo e por incrível que pareça, me cobrar reverencia dentro da igreja (shame on me!), paralelo a isso ele era livre para ser muçulmano na intensidade que ele desejasse ser, cheguei a procurar uma mesquita para que ele não se sentisse tão deslocado, religiosamente falando, e até lembrava a ele as cinco orações diarias. A vida era traquila apesar dos detalhes que falei no post passado…

Paralelo aos problemas religiosos tive que lidar com outro problema tão delicado quanto: o cultural. Uma das coisas mais difíceis para um estrangeiro é seguir regras que pra ele não faz o mínimo sentido. O turista que vai ao Egitão nunca vai entender essas coisas porque o turista no Egito pode ser ele mesmo, afinal, ele não está alí pra ficar e as pessoas que lidam com ele não vão exigir que ele siga os costumes locais, eles não são nem doidos para contrariar os responsáveis por uma de suas maiores fonte de renda, concordam?! Mas quando vamos a qualquer país na intenção de fazer parte do mesmo, temos que ter em mente que temos que estar totalmente abertos a nova cultura, e que se quizermos conviver em paz e ganhar a confiança do nativo, teremos que desligar o botão pra muita coisa e nos adaptar à nova cultura, processo lento e dependendo da situação, nada agradável!

A minha grande dificuldade no Egitão foi me adequar ao estilo de vida esperado para uma mulher egípcia. Eu entendia de estilo de vida da mulher brasileira, independente, dona do seu proprio nariz, que sai com as amigas sem necessariamente ter que dar satisfação a ninguem, que tem milhares de amigos homens, os beija, abraça, chama até de meu amor, mas tudo na mais pura amizade, estava acostumada com aquela mulher vaidosa, cabelos ao vento, meio quilo de maquiagem (putzzz exagerei legal agora!), estilo de vestir chamativo (sem ser vulgar, é lógico!), aquela mulher que se quiser dançar em uma festa, ela dança, se ela quiser dar altas gargalhadas frente a uma piada engraçada ela dá, aquela mulher que sonha em casar, mas que casa por sentimento e não já tendo em mente que o dever dela são todos os afazeres domésticos, botar filhos no mundo e andar à sombra do marido…

Bom, a lista de problemas culturais é um tanto grandinha, e pra não cansar os preciosos olhos dos meus leitores, vou dividí-la em algumas partes. Hoje quero compartilhar com vocês alguns detalhes de vestimentas e maquiagem…

Meu segundo dia de moradora no Egitão foi meio estressante, eu já sabia que a mulher lá tinha algumas restrições, mas não pensei que seria apresentada à elas tão rápido assim:

– Hoje vou te levar pro Khan el Khalili. Lá tem uns Cafes muito legais, tenho certeza que você vai gostar muito, tem tambem dezenas de lojas, você pode comprar o que você quiser lá…  – disse o falecido –

Wow!! Compras?! E o que eu bem quisesse?! Era tudo que eu queria…

– Ótimo. Vou me arrumar então…

Era inverno, a temperatura estava em torno de 7°C, clima da Sibéria para uma pobre Nordestina acostumada a um “inverno” de 20ºC e poucos, mas sorte minha, porque se eu tivesse pego o verão do Egito, aí sim eu teria com certeza tido serios problemas culturais. Vestí uma calça jeans um pouco justa, uma blusa de mangas compridas justa tambem, uma bota de salto alto e um sobretudo por cima. Quando eu ía saindo a mãe do falecido me olha e diz que a roupa não estava legal, o problema era que a blusa não era comprida o suficiente para cobrir toda região da frente. Não!! Não!! A barriga não estava aparecendo, mas segundo o conceito egípcio uma boa mulher nunca sai a rua mostrando detalhes do corpo, e como a blusa era curta, estava mostrando os quadris, sem contar que a calça era justa. Juro que não tinha nada demais no modelito, isso segundo os conceitos brasileiros de vulgaridade, mas para o egípcio, eu estava beirando o inaceitável… Era meu segundo dia de Egitão, e na intenção de agradar a sogra sargentão, troquei a blusa e coloquei uma que havia ganho da cunhada: uma blusa preta ENORME que aqui no Brasil dava pra ser usada como vestido sem bronca nenhuma, era uns 20cm acima do meu joelho, e bem folgada, dando aquele ar de linha reta sem fim, só não fiquei com cara de tronco de bananeira porque a cor não era verde…

Não sou tão apegada a maquiagem, quer dizer, sempre gostei de olhos bem destacados, e dizem que eu tenho olhos bonitos, então esse tipo de comentario só colabora né :P, mas de modo geral não sou tão vidrada em maquiagem, só que a sogra cismou que eu tinha que colocar alguma coisa no rosto, e por mais que eu explicasse a ela que eu não queria, ela já ia falando com o potinho nas mãos… Tá bom!! Tá bom!! Vamos mais uma vez agradar… Nunca ví demorar tanto pra passar uma base, e quando eu me olho no espelho…

 – WHAT THE HELL IS THAT?!

Ainda bem que ela não entendia inglês! Eu estava ganhando pra Gasparzinho, a cara era um reboco só de base branca que dava medo, enquanto eu me desesperava, o falecido dizia que eu tinha ficado linda. Geeente, como que alguem pode achar uma cara rebocada de base branca como a neve, linda?! Mas tudo bem, lá vai eu a la Gasparzinho para o Khan el Khalili, meu desespero só não foi maior porque ao longo do caminho encontrei outras caras rebocadas também, e percebí que aquilo era “normal” por alí. Tenho fotos fantasmagóricas desse dia, qualquer hora dessas mostro a vocês…

Mas tudo isso foi a piece of cake, frente a outros problemas culturais que enfrentei na Terra dos Faraós. Amanhã vocês conhecerão outros episódios… 🙂

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6 Respostas para “:: Casamento Misto: Problemas Culturais – Parte I ::

  1. Hahahahahaha! Me lembrou de um noivado que fui no Egito! Minhas amigas falaram que iam me maquiar, quando eu olho no espelho, quase tive um infarto! Tava mais branca que a branca de neve! ahahhahahaha Um horror!

    • Ahh mas isso pra elas é lindo, tem gosto pra tudo né 😦
      Eu vivia fugindo quando o assunto era ser maquiada pelo pessoal de lá O_O

  2. Sinceramente, graças a Deus eu não convivo com a família dele. O pai dele não sabe ainda que ele se casou. É! Só vim a saber desse episódio quando cheguei aqui, ele não aceitaria um filho casada com estrangeira e blá blá blá. Então por isso eu não tenho convivido com a família dele. Algumas vezes minha cunhada e eu saímos junto, ela é legal mas é um porre! Fica regulando tudo e qualquer coisa que eu queira fazer ou comprar. Pô! Dinheiro é meu, eu trabalhei pra ele e ela sempre dá um sermão affffffffff …..
    Em relação à esses tipos de cuidados, eu não curto usar nada do rosto, até porque aqui é um calor danado e eu suo pra caramba, então não dá pra por nada mesmo. Só o protetor solar. Mas eles gostam mesmo é de mulher sem maquiagem, com o corpo coberto, de véu. Inventei de colocar um véuzinho só pra ver como eu ficava e os olhos do amore brilharam. Enta gamila!!! ehehehhe
    Eu mereço!!!!!
    bjkasssssssss

    • Julyyta!!! Que bom te ver aqui de novo!!

      Bom, por mais que o amor seja lindo e as rosas exalem perfume, mas a gente sabe que no fundo de tudo, as familias não aceitam de bom grado que seus filhos se casem com estrangeiras, ainda mais quando essa estrangeira não são muçulmanas, aqueles que “aceitam”, fazem por respeito a decisão do filho ou por educação mesmo, mas se tivessem que escolher, é obvio que escolheriam uma esposa muçulmana e nativa pra eles. Pra certas familias o melhor mesmo é manter distancia, alem da questão religiosa, tem outra cultura muito chata: o povo egipcio em geral ama dar pitaco na vida dos outros. Argh!!

      Nessa questão de maquiagem até que não tinha restrições lá no falecido não, era bem pelo contrario, a mãe dele vivia no meu pé pra que eu me pintasse toda antes de sair, tudo bem que sempre achei isso estranho, já que o normal é que a mulher só se pinte em casa, mas… tudo bem…

      E o véu?! ahhhh inventei de usar uma vez pra fazer o gosto deles lá e quase fazem uma festa, e o comentário foi o mesmo: “Enta gamila”. Tá bom, muito bonitinho, mas antes que pedissem pra eu usar de novo, já fui logo deixando bem claro que hijab não era meu forte e que aquilo me deixava sufocada, não gostaram muito não, mas… parece que respeitaram…

  3. Mas ninguem merece uma sogra dizendo o que vc deve ou nao fazer neh…. me desculpa mas o falecido podia ter intercedido por vc. Aí nao tem amor que resista!
    Bjocassss

    • Tambem acho, mas na cabeça dele, ela estava tentando se aproximar de mim… e como eu estava recem chegada lá no Egitão, dei o braço a torcer e assim foi por muitas ocasiões, até que cansei e daí em diante a sogra sargentão passou a me odiar 😦

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