Arquivo da categoria: Egito

Mantendo a privacidade


Quem me acompanha desde os primeiros posts do blog, sabe que passei uma temporada compartilhando minhas experiências nas Terras dos Faraós, em especial as que tinham alguma ligação com minha vida ao lado do ex habiby, ou como costumava chamar: falecido. Foram dezenas de posts que renderam milhares de visitas e centenas de comentários. Histórias que serviram de alerta para uns e diversão para outros, até mesmo pra mim que ficava rindo com as minhas próprias trapalhadas.

Naquela época tudo era muito recente, as mágoas estavam a flor da pele e de alguma forma eu tinha que colocar tudo pra fora, e pelo jeito encontrei essa oportunidade na tela do computador, e comecei a escrever sobre detalhes pessoais, alguns bem íntimos, e sem restrição alguma fiz da minha vida um marcador de livro em uma página aberta… Foi tudo válido e mais ainda por saber que pude usar todos os meus erros do passado pra tentar fazer um futuro diferente, não apenas para mim, mas também pra muitas pessoas que leram os inúmeros relatos postados aqui, mas cheguei a conclusão que chegou a hora de tirar esse marcador e guardar o livro…

Comunico a vocês que a grande maioria dos posts relacionados a minha vida pessoal no Egito não estão mais na rede. Agradeço de coração a todos que leram e comentaram as postagens. Está tudo bem guardado aqui comigo.

Anúncios

Wahashtiny yaa Masr!


Hoje eu estou com saudades do Egito. Não sei como explicar, mas apesar de tudo, eu ainda sou apaixonada por aquela terra. É uma paixão que começou com o Egito dos Faraós lá nos meus tempos de escola e permanece até hoje com o “Egito de Mubarak”. Conhecí o Egito do turista e o Egito dos egípcios, e hoje sinto falta de tudo isso.

Hoje eu sinto falta de passear pela Corniche e admirar a beleza do Rio Nilo, a Tahrir Square, que hoje é palco dos conflitos, já foi meu caminho de casa, ainda lembro a emoção que era passar na frente do Museu do Cairo, se mil vezes passasse por ele, mil vezes eu o namorava. Hoje sinto falta dos hijabs, niqabs e abayas (roupas islâmica), que nos meus primeiros dias de moradora no Egito, me pareciam tão estranhos…

Sinto falta de ligar a TV e ficar desesperada tentando entender alguma palavra daquele árabe egípcio, morro de saudades das risadas dos amigos frente a minha tentativa de falar árabe, um árabe meio inglês, meio português, mas eles estavam sempre tão dispostos a me ensinar, que eu nem sentia vergonha de errar…

Naquele tempo aquilo me irritava, mas hoje eu estou com saudades até do Azan (chamado a oração) que se fazia ouvir as cinco da manhã vindo da mesquita perto de casa. Irritante mesmo era o trânsito caótico do centro da cidade, mas até dele hoje eu sinto falta…

Estou com saudade do Khan el Khalili,  da mesquita que fica lá pertinho, daquele emaranhado de ruas estreitas que me faziam perder a noção geográfica do lugar. Sinto falta das lojinhas de sementes, dos bolos de chocolate que nunca encontrei em nenhum outro lugar desse mundo…

E as pirâmides?! Claro que não esqueceria delas, sinto saudades de passar na estrada e já enxergá-las de longe, e ao passar por elas, ficar me contorcendo toda a procura do melhor ângulo, até que elas sumiam da minha visão.

Hoje eu estou com saudades de Alexandria, meu amor a primeira vista, meus melhores dias foram lá. Que saudade de ficar na varanda observando o mar e aquelas pessoas de costumes tão diferentes dos meus. Se fechar os olhos, ainda posso sentir o cheiro da padaria da esquina… Sinto uma saudade profunda do povo egípcio, da hospitalidade, do esforço para fazer com que o estrangeiro sinta-se parte dos nativos.

O Egito hoje está passando por toda aquela fase difícil, me parte o coração em cada noticia divulgada, em cada morte, em cada perda, peço a Deus que abrevie esse sofrimento e traga o desenvolvimento que os egípcios precisam, eles não merecem sofrer tanto e nós, meio brasileiros, meio egípcios, também não.

AH QUE SAUDADE!!!

 

Saudade do Athan


Não, não me convertí ao islamismo. Continuo sendo cristã/evangélica e não tenho pretenções de mudar de grupo religioso, mas confesso que tem muita coisa no mundo islâmico que chama minha atenção, entre elas, está a forma como é lido o Qur’an (livro sagrado dos muçulmanos). A leitura é feita em forma de melodia, o que da uma harmonia e vida incrivel ao texto. Pra quem ainda não teve a oportunidade de ouvir o Qur’an sendo lido, da uma passadinha aqui e confere como é lindo!

Outra coisa bem interessante é o Athan, o chamado à oração, que em países árabes pode ser facilmente ouvido do alto dos minaretes. Nos meus primeiros dias no Egitão levei um certo tempo pra me acostumar com esse som, confesso que no começo me irritava, principalmente quando era tocado em plena madrugada ou cedo demais da manhã, mas com o passar do tempo eu fui me adaptando e dependendo da voz do Sheikh eu achava até legal ouvir. Gostei tanto que quando voltei ao Brasil instalei um programinha do Athan no meu computador.

E daí que hoje me deu saudade do Athan e de toda aquela atmosfera religiosa que a gente encontra no Egitão…

E pra quem nunca ouviu o Athan, deixo dois aqui bem legais…



A brazucada e os casamentos virtuais


Esses dias eu estava cá com meus botões pensando nos inúmeros casos que conheço de relacionamento amoroso entre egípcios e estrangeiras, e vou contar a vocês, é incrível perceber como na maioria dos casos é sempre a mulher que tem que abrir mão das coisas, seja do seu conforto, seja da sua liberdade, seja da sua religião, seja até mesmo das economias conseguidas a custo de muito suor. Vocês conhecem a comunidade EGITO – DO NILO AO DESERTO? Não?! Então clica aqui e faz uma visitinha, garanto que não vão se arrepender.

Então, o pessoal lá na comunidade estava comentando sobre esses relacionamentos e surgiu esse comentario: “Porque tem tanto egípcio na internet procurando casamento?”, e logo eu lembrei dos pensamentos que eu estava compartilhando com meus botões. Porque é que a mulherada tem sempre que se sacrificar? Se o egípcio vai casar com uma egípcia, ele tem que dar apartamento do jeito que ela quer, tem que bancar do bom e do melhor e ainda tem aquela paradinha do dote, aí o egípcio encontra uma brasileira carente vagando por essa imensidão virtual, diz um ‘I love you’ aqui, um ‘bahebak’ alí e pronto, o casamento já está marcado, e daí a brasileira faz das tripas coração pra comprar a passagem pra ir pro Egitão conhecer o phophis e pior que isso, ela já vai certinha pra casar com ele, não sabe nem se vai se adaptar a cultura local, se o cara ronca ou tem mau hálito, o amor é lindo e ponto final.

Vocês tem noção do tamanho do risco?! Se tudo der certo, graças a Deus, mas e se não der?! O egípcio estará no conforto da sua pátria, e quanto a brasileira? Ela estará longe de tudo que lhe é familiar e agora com a dificil tarefa de voltar pra casa pra reconstruir a vida. A mulher abre mão da sua propria religião, conheço casos de mulheres, inclusive esta que vos escreve, que abriram mão até do seu conforto financeiro, e tudo em nome de um grande “amor”…  Aiii gente, até onde isso vale a pena?!  Não é que eu duvide da possibilidade de felicidade conjulgal por essas vias, mas depois de passar por certas situações, a gente chega a conclusão que prevenir ainda é a melhor opção. Poxa, se a mulher pode se sacrificar pra conhecer o bonitão da pirâmide, porque eles também não podem fazer uma forcinha, tirar a poupança da cadeira, pegar um vôo e vir aqui no Brasil conhecer a brasileira? Porque só ela que tem que se arriscar?

E o que mais me deixa de cabelos em pé em tudo isso é quando encontro alguma doida varrida corajosa que larga tudo aqui pra casar com o bonitão da pirâmide que financeiramente muito mal consegue manter a si mesmo, e pior ainda é quando ela já vai certinha de casar pra tentar trazer o cara pra tentar a vida aqui no Brasil. Tudo bem que o amor é lindo, mas é bom lembrar que ele não paga as contas…

☆ Valentine’s Day ☆


Vocês sabem que dia é hoje além de domingo 14 de fevereiro? Não?! Bom, na verdade para a maioria dos brasileiros esse dia passa desapercebido, mas para muitos países hoje é o dia de São Valentim, ou Valentine’s Day como é mais conhecido. Nunca tinha ouvido falar sobre essa data? Passa aqui então que tem tudo bem explicadinho. Mas em resumo, Valentine’s Day é o equivalente ao nosso Dia dos Namorados. Sorte daqueles que tem alguém com quem comemorar esta data, não é mesmo?! Eu voltei para o clube das solteiras e aqui estou na fila esperando a vez, mas a coisa tá ruça, viu!

Bom, há três anos atrás no Valentine’s Day eu estava no Egitão e foi o Valentine mais tosco que eu já passei em toda minha vida. Na época eu estava casada com o falecido e ele me levou a um restaurante as margens do Rio Nilo, um ambiente muito agradável e por causa da data, a grande maioria dos cliente naquela noite eram casais. Eu tinha chegado a pouco tempo no Egitão e não sabia ainda o funcionamento da cultura árabe no que diz respeito a comportamento com o namorado ou marido fora de casa, e sem cerimônias me agarrei ao falecido naquele clima de romantismo sem fim, nada de imoral, pelo menos não para os padrões brasileiros de moral e ética… E lá estávamos nós trocando umas ideias, quando chega o gerente do restaurante e fala alguma coisa com o falecido, claro que eu não entendí nada, poruqe o cara falou árabe. Fiquei lá com cara de paisagem e esperando que ele me situasse. Foi daí que eu descobrí que no Egitão é proibido casais demonstrarem afeto em público, um simples encostar de cabeça no ombro e um beijo no rosto foi suficiente para que o gerente nos repreendesse, segundo ele, nós estávamos deixando os outros clientes constrangidos. Depois dessa, nunca mais que eu quero passar um Valentine’s Day no Egito… Que o próximo seja no Brasil e de preferencia com um brasileiro! Interessados, podem mandar o curriculo para o RH 😛

:: O respeito no vestir ::


Eu nunca tive grandes problemas com o modo de vestir egípcio, sou evangélica e a denominação a qual eu faço parte é bem cuidadosa em relação a roupa, apesar disso tive lá meus dias de stress provenientes de uma aculturação meio sem preparo prévio, depois faço um post mais específico desses momentos, mas no final tudo deu certo, e acabei até revendo muitos dos meus conceitos, claro que pra isso tive que renunciar muito da minha mente ocidental…

Pra quem não está acostumado com o mundo árabe, é um choque ver as mulheres tão cobertas, principalmente aquelas que usam uma vestimenta chamada niqab, que deixa apenas os olhos de fora. Pra ser sincera, eu ainda não assimilei muito bem o sentido dessa vestimenta, por mais explicações teóricas e práticas que eu tenha tido. A irmã do falecido é muçulmana daquelas bem fervorosas e nas épocas em que eu estava lá no Egitão ela tinha planos de passar a ser usuária do niqab, mesmo que essa atitude não fosse muito bem aprovada pelo marido dela e até pelo falecido também. Ela dizia que aquilo era por dedicação a Deus, era anular-se completamente para o mundo exterior… Bom, religião não se discute, apenas respeita-se. As pessoas são, ou pelo menos deveriam ser, livres para seguirem o que lhes parece melhor, mas do meu ponto de vista, eu não preciso me anular como membro de uma sociedade, esconder a minha identidade, para que assim eu possa estar mais próxima a Deus, mas enfim, se isso faz certas pessoas mais felizes, então que seja…

Niqab a parte, o fato é que a grande maioria das mulheres egípcias vestem-se de uma forma muito diferente do que estamos acostumados a ver na maioria aqui no Brasil. Para nós mulheres isso causa um choque inicial e para os homens um comportamento bem diferente do que eles tem com as mulheres brasileiras. Esses dias eu estava conversando com um colega virtual que passou um tempo em um país árabe, e eu achei bem interessante a forma como ele via as mulheres do tal país. Ele disse que a princípio foi estranho ver as mulheres tão vestidas, ainda mais ele, que aqui no Brasil mora em uma cidade litoranea e está acostumado a ver as mulheres vestidas com o mínimo de roupa possível, o mais interessante foi ele dizer que com o tempo ficou mais habituado a ver as mulheres daquela forma e passou a ter por elas, um respeito que ele não conseguia ter com as mulheres brasileiras. Segundo ele, a mulher árabe impõe respeito, realidade bem diferente nas mulheres brasileiras.

Fica aqui a observação para quem jura que os homens adoram a mulherada que vive exibindo o que na verdade deveria ser preservado, enquanto “achamos” que estamos abafando, eles nos olham como algo descartável, sem merecimento de repeito algum. Bonito para “nós”, não é mesmo?! Que possamos acordar pra vida e seguir os bons costumes do mundo oriental, da pra ser mulher, elegante, bonita, interessante e desejada, sem que pra isso tenhamos que perder o respeito proprio. Pensemos nisso com seriedade…

:: A escravidão da mulher ocidental ::


Vivendo no mundo ocidental, é bem comum ouvir comentários do tipo: “Ohhh como a mulher árabe sofre”, e quando o assunto é modo de vestir-se então, parece que o mundo oriental é sinônimo de sofrimento e escravidão. Será?! Não tenho base teórica e muito menos prática para falar da mulher árabe englobando todos os países que seguem esta cultura, mas a temporada passada lá no Egitão me deu alguns fundamentos, pelo menos segundo a cultura árabe-egípcia, para pensar um tanto diferente da maioria ocidentalizada.

Apesar de não ser muçulmana, mas admito que frente a algumas situações no meu mundo ocidental, desejei que nossos conterrâneos, principalmente as mulheres, tivessem um comportamento semelhante ao das mulheres islâmicas que ví lá no Egitão. Lá a grande maioria é islâmica, obviamente que o estilo de vestir da maioria será compatível a cultura predominante, nos homens esse detalhe não é muito visível, já que basicamente homens de todo o mundo vestem-se da mesma forma: calça e camisa, pode acontecer de encontrar algum homem vestindo uma galabeya (vestido longo), ou usando um turbante, mas pelo menos lá onde eu morei (Cairo) isso não era muito comum, já nas mulheres, essa diferença entre ocidente e oriente é bem visível. A grande maioria está sempre bem composta, nada de pernas, braços ou bustos a amostra, a maioria usa o hijab (lenço que deixa só o rosto de fora) e um grupo menor usa o niqab (lenço que cobre todo o rosto, deixando apenas os olhos de fora). Essas que usam o niqab geralmente usam também luvas e sapatos sempre fechados, ví algumas que até na área dos olhos colocavam tipo uma telinha, a mulher fica simplesmente identificável…

A ex cunhada, muçulmana da gema, era bem religiosa e comentava que pretendia aderir ao uso do niqab, o falecido e o marido dela não eram muito de acordo, mas ela insistia, e quando eu perguntava o porque do uso daquela vestimenta, ela dizia que era por dedicação a Deus, e também porque ela queria que apenas os familiares (referindo-se aos homens) tivessem acesso a sua identidade… Bom, eu sempre achei o uso do niqab meio o extremo da modestia, mas enfim, gosto não se discute, crença religiosa se respeita, e  além disso, meu objetivo hoje não é comentar sobre os tipos de roupas islâmicas…

O fato é que muitas brasileiras comentam sobre o suposto sofrimento e escravidão da mulher árabe por andar sempre tão “empacotada”. Antes de ter contato direto com esse mundo eu também pensava assim, até que me ví entre elas e posso ser sincera?! Estou pra ver mulheres mais livres e felizes do que as árabes, é claro que tem aquelas que são de uma família tradicional e daí certas ações são meio que imposição da família, mas isso aí são casos isolados, a maioria das mulheres lá no Egitão, e falo tanto em Egito porque foi onde tive um contato direto, são da forma que são por livre e espontânea vontade.

Sabe o legal lá no Egito? A sociedade não cobra um corpo escultural, as mulheres são valorizadas por suas qualidades como seres humanos e não como objeto de prazer alheio. Sempre tive problemas com o peso, nunca fui magra, mas Deus em sua grande misericórdia me deu uma altura que me proporciona um “escondimento” (acabei de inventar essa palavra!) dos pesos extras, porem o medo de que a gordura supere o disfarce da altura é tão grande que vivo lutando contra a balança, e como era de se esperar, todos ao redor cobram um corpo magro. Lá no Egito não era diferente, sendo que o tom da cobrança era outro. Aqui no Brasil todos diziam que eu tinha que emagrecer porque pessoas gordas são muito feias, e olhe que a minha gordura nunca foi nada de tão exorbitante assim. Lá no Egitão, o falecido e cia também pegavam no meu pé, mas diziam que eu tinha que emagrecer pra não ter a saúde comprometida. Percebem a diferença?!

Os ocidentais acham que a mulher egípcia é escrava e sofredora, só porque ela se veste de forma composta, mas esquece de ver que a mulher brasileira é escrava dos padrões de beleza ditados pela mídia, que faz da mulher um meio de vida, uma fonte de renda. Se alguma mulher acha isso bonito, me desculpa, mas eu odeio ser vista como um objeto, isso pra mim é a pior das escravidões. Aqui no Brasil eu vivo me preocupando com as gorduras extras, e quem me dera se fosse apenas por uma questão de saúde, a sociedade que eu vivo faz, até de forma inconsciente, que questões estéticas venham primeiro que tudo nessa vida. É claro que uma silhueta harmônica deixa qualquer mulher de qualquer parte do planeta mais feliz, o problema é que aqui no Brasil a grande maioria das mulheres vive em função dessa silhueta, e para obtê-la são capazes de fazer horrores. É isso que chamamos de liberdade?! Tenho lá minhas dúvidas…

:: E quando a vida no Egito da errado?! ::


 

O Egito de hoje está bem distante do Egito das nossas aulas de historia, o glamour ficou em algum lugar nos tempos faraônicos e deu lugar ao que é hoje um país de economia difícil e habitantes que sonham com uma vida melhor em alguma outra parte mais desenvolvida do planeta. Tendo em vista a dificuldade na liberação de visto de estudante ou de turismo, o caminho mais viável para certos egípcios acaba sendo o casamento com estrangeiras, desta forma eles tem a chance de ter um visto garantido para outro país e assim a oportunidade de uma vida melhor. Por outro lado, a mulher brasileira, cansada daqueles homens que só pensam em momentos de diversão, lança-se pela imensidão virtual na esperança do encontro com o príncipe encantado e dá de cara com aquele egípcio romântico que diz que a ama e quer formar uma família com ela. O encontro perfeito: o egípcio tem a chance de deixar o Egito e a brasileira tem a chance de encontrar o homem dos seus sonhos. Até aí nada demais, afinal de contas todos nós estamos à procura de uma vida financeira e sentimentalmente melhor. Muitos casais embarcam nessa aventura e com um pouco de sorte e muita cumplicidade conseguem alcançar seus objetivos, consequentemente formando o casal feliz de todos os sonhos dos solteiros. Mas a realidade nem sempre é tão perfeita como parece…

Já sabemos que o Egito é um país de economia difícil, mas é lógico que existem egípcios bem sucedidos, o detalhe é que estes dificilmente estarão na net à procura de relacionamento amoroso, pelo menos não encontrei nenhum nos casos que me rodeiam. Não, não é errado manter um relacionamento com uma pessoa que esteja na estaca zero da vida, o problema é quando a pessoa em questão não tem disposição suficiente para crescer e pretende viver de carona no crescimento alheio…

É crescente o caso de brasileiras que casam com egípcios financeiramente mal resolvidos, por diversos motivos, a vida no Egito não da muito certo e frente a esta realidade embarcam na aventura da tentava de vida no Brasil, e é aí onde o sonho pode tornar-se um pesadelo. Se emprego está difícil para os nativos, imagina só pra um estrangeiro.  Essa mudança demanda esforço mutuo: da brasileira no sentido de ser paciente frente o difícil processo de aculturação do egípcio, e do egípcio no sentido de se adaptar a nova realidade e fazer por onde se adequar a mesma. Quero trocar umas idéias com vocês a respeito dessa fase ‘de volta ao Brasil’, amanhã estarei de volta com as minhas impressões a respeito…

:: O falecido no Brasil: Com medo do ladrão! ::


O falecido levou um certo tempo para se acostumar com o estilo de vida brasileiro, entre tantas coisas, ele sempre comentava da violencia, morria de medo de ser assaltado. Coitado! Se para nós nativos a falta de segurança assusta, imagina para um estrangeiro, acostumado a viver em um lugar onde as duas da madruga ele pode ir ao cinema, e ao voltar pra casa, quase as quatro da manhã, ainda da tempo pra comer uma pizza na esquina de casa, e tudo isso sem se preocupar com uma bala perdida ou qualquer outra coisa do tipo… É uma mudança bem brusca! Moro em um dos estados considerado mais violento do país, fato que só assustava mais ainda a cabeça do pobre egípcio, mesmo que eu tivesse tentado explicar milhões de vezes a ele que a cidade em que eu morava era relativamente tranquila em relação a isso, e que apesar de tudo, o indice de violencia aqui era baixo…

Moro em uma casa que tem um quintal com uma area verde bem agradável, entre alguns pés de fruta, estão dois coqueiros que adoram dar susto nos desavisados, quando não cai algum coco seco, se desprende alguma folha velha, fazendo aquele barulho todo, que dobre de altura de madrugada quando tudo é silencio ao redor. Nos primeiros dias de Brasil do falecido, ele vivia trocando os horarios de dormir, fato aceitável para um organismo que tinha vindo de um fuso horário diferente do local, e nos primeiros meses era comum eu ir pra cama primeiro que ele, já que eu tinha que acordar cedo no dia seguinte para trabalhar. Em uma bela noite, lá estava eu babando ao travesseiro quando fui acordada por algo que aterrizou bruscamente na cama…

– EU NÃO QUERO MORRER!! EU NÃO QUERO MORRER!!

Acordei ainda ‘meio dormindo’ e sem saber ao certo o que estava se passando ao meu redor, se eu estava mesmo acordada ou se tudo aquilo fazia parte de um sonho…

– WHAT?! WHAT?!
– I DON’T WANT TO DIE!! I DON’T WANT TO DIE

Segundos depois o cerebro assimilou a realidade e percebí que não era sonho coisa nenhuma, era o falecido agarrado a mim e dizendo desesperado que não queria morrer, e quando o meu cerebro sonolento acordou por completo, fiquei mais desesperada ainda porque logo pensei que ele estivesse com algum problema de saude e passando mal…

Tá bom! Calma!! Calma!! O que está acontecendo? Você tá sentindo alguma coisa?!
– EU NÃO QUERO MORRER!! EU NÃO QUERO MORRER!!
– Tá bom, mas me fala o que está acontecendo, o que você está sentindo…
– TEM UM LADRÃO EM CASA!!!
– O_O

Graças a Deus que eu não tenho problema cardíaco, caso contrário vocês não estariam lendo essas palavras aqui, mas o choque foi tão grande que sentí meu coração bater na pontinha da sombra da unha do dedo midinho… A janela do meu quarto é de vidro e me bateu um medo tão grande que eu já estava visualizando o ladrão pendurado na janela e apontando a arma pra minha cabeça…

Como você sabe que tem ladrão aqui?!
– Eu ouví um barulho vindo lá do quintal…

Não sei de onde eu arrumei coragem, mas me mandei pra a janela da parte de tras da casa pra verificar o tal ladrão que o falecido supostamente tinha ouvido. O silencio reinava soberano, fiquei uns minutos na brecha da janela esperando pelo pior, mas nada acontecia. Voltei pro quarto…

Olha, eu acho que foi impressão tua, não tem nada se movendo lá atras não…
– MAS EU OUVÍ O BARULHO
– Tá, mas com esse silencio que está, até o barulho de uma respiração se ouve, e lá atras está tudo no mais profundo silencio

SHHHHHHPAHHHHHHHHHHHHH!!!! Um barulhão vem lá do quintal…

I TOLD YOU! I TOLD YOU!! I DON’T WANT TO DIE!!!

Realmente dessa vez eu tinha ouvido um barulhão vindo lá de tras, e agora?! O medo do falecido já tinha passado pra mim e a essas alturas eu já estava beirando o desespero, mas era muito estranho, em todos esses anos morando aqui, nunca havia acontecido caso de assalto, era muita falta de sorte acontecer justo agora que o falecido estava aqui e tentando se adaptar a terrinha, era dessa vez que ele pegaria o primeiro voo de volta pro Egitão! Foi aí que tive alguns segundos de raciocínio lógico e me lembrei do pé de coco…

AHHHHH espera aí! Já sei quem é o ladrão!!

Voltei pra a janela e fiquei encarando os pés de coco… Daqui a pouco deu um vento mais forte e SHHHHPAHHHH BEEEEI! uma das olhas caiu fazendo aquela zuada toda. O problema era que a folha estava quase caindo, então quando dava um vento mais forte ela batia nas outras e como era noite, o barulho dava a impressão que tinha alguem mexendo nela, e o falecido já morrendo de medo da violencia no Brasil, ja interpretou o barulho como um ladrão que estava prestes a fazer o pior conosco… Voltei pro quarto…

Vamos dormir!
– E O LADRÃO?!
– Esquece o ladrão, já dei um jeito nele…
– NÃO BRINCA!! ISSO É SERIO!!!
– Não estou brincando não, já dei um jeito nele, amanhã eu te conto como foi, agora PLEASE vamos dormir!!!

:: Valentine’s Day no Egitão ::


A data era 14 e o mês era fevereiro. O que para nós é “Dia dos namorados”, lá no Egitão é “Valentine’s Day”. Ahhh mas antes de contar a minha historinha de Valentine’s day no Egitão, quero compartilhar com vocês algumas informações sobre a origem da data…

Valentine era um padre em Roma, quando o cristinanismo era uma religião nova. O imperador nesse tempo, Claudius II requisitou que os soldados romanos não se casassem. Claudius acreditava que, como homens casados, seus soldados iriam querer permancer em casa com suas famílias ao invés de lutar nas guerras. Valentine foi contra o decreto do imperador e casava secretamente os jovens. O padre foi preso e julgado à morte. Valentine morreu em 14 de fevereiro. Após sua morte, Valentine foi considerado santo e o dia 14 de fevereiro considerado o dia dos apaixonados, em homenagem a ele.

No Brasil a origem é outra. O dia dos namorados é comemorado no dia 12 de junho, por anteceder o dia de santo Antonio, santo portugues considerado casamenteiro, provavelmente devido suas pregações a respeito da importância da união familiar. A data provavelmente surgiu no comércio paulista quando o publicitário João Dória trouxe a idéia do exterior e a apresentou aos comerciantes e depois foi assumida por todo o comércio brasileiro para reproduzir o mesmo efeito do dia de São Valentim,  para incentivar a troca de presentes entre os apaixonados. Como junho é um mês de vendas baixas, eles decidiram comemorar a data nesse mês, ideia que funciona até os nossos dias…

Claro que eu só vim saber disso depois que passei um dia dos namorados no Egitão, fiquei sem entender porque lá não era em junho como é aqui e porque era chamado de dia de São Valentim e não dia dos namorados, mas enfim, dia 14 de fevereiro lá estava eu no Cairão e já fui dizendo ao falecido que eu queria alguma programação diferente para comemorar aquele dia, afinal, era o primeiro dia dos namorados fora do mundo virtual e teria que ser comemorado em grande estilo.

Fomos a um restaurante as margens do Rio Nilo. A disposição das mesas era bem curiosa, era como se o restaurante fosse uma arquibancada, as mesas ficavam alinhadas horizontalmente e ao longo das “arquibancadas” tinha varias e varias arvores ornamentadas com umas luzes pequenas. Uma fofurinha! Escolhí ficar na “arquibancada” de baixo pra ficar o mais próximo possível ao Rio Nilo, se esticasse o braço um pouco mais, tocaria nas águas do rio. Um cenário perfeito para comemorar o Valentine’s day!

Fazia pouco tempo que eu estava no Egitão e ainda não tinha entrado no processo de aculturação, estava com a minha mente de turista achando que podia colocar em prática todos os meus costumes pátrios e mais que depressa já fui me grudando ao falecido, nada demais, só entrelacei meu braço ao dele e encostei minha cabeça no seu ombro direito, claro que a minha intenção posteriormente era abraçá-lo e dar uns beijos tambem. Algum mal nisso!? Não né?! Para os padrões brasileiros não, mas já para os egípcios…

– Ajbuvj nvjhv vuvsfvf – Falou o gerente do restaurante para o falecido –
– Bhujng  Jhiuhg ujj  – Falou o falecido para o gerente
– Ckomg Fnfan – Falou o gerente para o falecido –
– Dngin – Falou o falecido para o gerente

Lembram que eu não falava nada de árabe né e durante a conversa dos dois eu fiquei de lado com cara de paisagem só ouvindo sons que não me diziam nada…

O que foi que ele te falou? – Perguntei ao falecido –
– Ele me pediu para que não tivéssemos contato fisico porque isso está causando mal estar nos clientes
– Mas como assim?
– É que aqui é proibido casais ter contato físico em público
– Mas que contato físico!? Eu só encostei minha cabeça no teu ombro…
– É mas não pode…
– Tá bom, pede a conta e vamos pra casa…

Ainda ficamos uns 20 minutos lá, pra mim que não estava acostumada com aquilo foi um tédio, ficar olhando pra cara do falecido e não poder nem fazer um carinho no rosto, depois observei ao redor e percebí que a grande maioria dos clientes eram casais que estavam sentados um de cada lado das mesas, unicamente conversando como amigos de velhos tempos, pra minha mente brasileira essa era uma forma muito sem graça de comemorar o dia dos namorados. Tá bom, tambem não sou a favor de altos beijos e abraços na frente dos outros, realmente não é legal, mas daí não poder nem encostar a cabeça no ombro do camarada…