Arquivo da categoria: O falecido no Brasil

Mantendo a privacidade


Quem me acompanha desde os primeiros posts do blog, sabe que passei uma temporada compartilhando minhas experiências nas Terras dos Faraós, em especial as que tinham alguma ligação com minha vida ao lado do ex habiby, ou como costumava chamar: falecido. Foram dezenas de posts que renderam milhares de visitas e centenas de comentários. Histórias que serviram de alerta para uns e diversão para outros, até mesmo pra mim que ficava rindo com as minhas próprias trapalhadas.

Naquela época tudo era muito recente, as mágoas estavam a flor da pele e de alguma forma eu tinha que colocar tudo pra fora, e pelo jeito encontrei essa oportunidade na tela do computador, e comecei a escrever sobre detalhes pessoais, alguns bem íntimos, e sem restrição alguma fiz da minha vida um marcador de livro em uma página aberta… Foi tudo válido e mais ainda por saber que pude usar todos os meus erros do passado pra tentar fazer um futuro diferente, não apenas para mim, mas também pra muitas pessoas que leram os inúmeros relatos postados aqui, mas cheguei a conclusão que chegou a hora de tirar esse marcador e guardar o livro…

Comunico a vocês que a grande maioria dos posts relacionados a minha vida pessoal no Egito não estão mais na rede. Agradeço de coração a todos que leram e comentaram as postagens. Está tudo bem guardado aqui comigo.

:: O falecido no Brasil: Com medo do ladrão! ::


O falecido levou um certo tempo para se acostumar com o estilo de vida brasileiro, entre tantas coisas, ele sempre comentava da violencia, morria de medo de ser assaltado. Coitado! Se para nós nativos a falta de segurança assusta, imagina para um estrangeiro, acostumado a viver em um lugar onde as duas da madruga ele pode ir ao cinema, e ao voltar pra casa, quase as quatro da manhã, ainda da tempo pra comer uma pizza na esquina de casa, e tudo isso sem se preocupar com uma bala perdida ou qualquer outra coisa do tipo… É uma mudança bem brusca! Moro em um dos estados considerado mais violento do país, fato que só assustava mais ainda a cabeça do pobre egípcio, mesmo que eu tivesse tentado explicar milhões de vezes a ele que a cidade em que eu morava era relativamente tranquila em relação a isso, e que apesar de tudo, o indice de violencia aqui era baixo…

Moro em uma casa que tem um quintal com uma area verde bem agradável, entre alguns pés de fruta, estão dois coqueiros que adoram dar susto nos desavisados, quando não cai algum coco seco, se desprende alguma folha velha, fazendo aquele barulho todo, que dobre de altura de madrugada quando tudo é silencio ao redor. Nos primeiros dias de Brasil do falecido, ele vivia trocando os horarios de dormir, fato aceitável para um organismo que tinha vindo de um fuso horário diferente do local, e nos primeiros meses era comum eu ir pra cama primeiro que ele, já que eu tinha que acordar cedo no dia seguinte para trabalhar. Em uma bela noite, lá estava eu babando ao travesseiro quando fui acordada por algo que aterrizou bruscamente na cama…

– EU NÃO QUERO MORRER!! EU NÃO QUERO MORRER!!

Acordei ainda ‘meio dormindo’ e sem saber ao certo o que estava se passando ao meu redor, se eu estava mesmo acordada ou se tudo aquilo fazia parte de um sonho…

– WHAT?! WHAT?!
– I DON’T WANT TO DIE!! I DON’T WANT TO DIE

Segundos depois o cerebro assimilou a realidade e percebí que não era sonho coisa nenhuma, era o falecido agarrado a mim e dizendo desesperado que não queria morrer, e quando o meu cerebro sonolento acordou por completo, fiquei mais desesperada ainda porque logo pensei que ele estivesse com algum problema de saude e passando mal…

Tá bom! Calma!! Calma!! O que está acontecendo? Você tá sentindo alguma coisa?!
– EU NÃO QUERO MORRER!! EU NÃO QUERO MORRER!!
– Tá bom, mas me fala o que está acontecendo, o que você está sentindo…
– TEM UM LADRÃO EM CASA!!!
– O_O

Graças a Deus que eu não tenho problema cardíaco, caso contrário vocês não estariam lendo essas palavras aqui, mas o choque foi tão grande que sentí meu coração bater na pontinha da sombra da unha do dedo midinho… A janela do meu quarto é de vidro e me bateu um medo tão grande que eu já estava visualizando o ladrão pendurado na janela e apontando a arma pra minha cabeça…

Como você sabe que tem ladrão aqui?!
– Eu ouví um barulho vindo lá do quintal…

Não sei de onde eu arrumei coragem, mas me mandei pra a janela da parte de tras da casa pra verificar o tal ladrão que o falecido supostamente tinha ouvido. O silencio reinava soberano, fiquei uns minutos na brecha da janela esperando pelo pior, mas nada acontecia. Voltei pro quarto…

Olha, eu acho que foi impressão tua, não tem nada se movendo lá atras não…
– MAS EU OUVÍ O BARULHO
– Tá, mas com esse silencio que está, até o barulho de uma respiração se ouve, e lá atras está tudo no mais profundo silencio

SHHHHHHPAHHHHHHHHHHHHH!!!! Um barulhão vem lá do quintal…

I TOLD YOU! I TOLD YOU!! I DON’T WANT TO DIE!!!

Realmente dessa vez eu tinha ouvido um barulhão vindo lá de tras, e agora?! O medo do falecido já tinha passado pra mim e a essas alturas eu já estava beirando o desespero, mas era muito estranho, em todos esses anos morando aqui, nunca havia acontecido caso de assalto, era muita falta de sorte acontecer justo agora que o falecido estava aqui e tentando se adaptar a terrinha, era dessa vez que ele pegaria o primeiro voo de volta pro Egitão! Foi aí que tive alguns segundos de raciocínio lógico e me lembrei do pé de coco…

AHHHHH espera aí! Já sei quem é o ladrão!!

Voltei pra a janela e fiquei encarando os pés de coco… Daqui a pouco deu um vento mais forte e SHHHHPAHHHH BEEEEI! uma das olhas caiu fazendo aquela zuada toda. O problema era que a folha estava quase caindo, então quando dava um vento mais forte ela batia nas outras e como era noite, o barulho dava a impressão que tinha alguem mexendo nela, e o falecido já morrendo de medo da violencia no Brasil, ja interpretou o barulho como um ladrão que estava prestes a fazer o pior conosco… Voltei pro quarto…

Vamos dormir!
– E O LADRÃO?!
– Esquece o ladrão, já dei um jeito nele…
– NÃO BRINCA!! ISSO É SERIO!!!
– Não estou brincando não, já dei um jeito nele, amanhã eu te conto como foi, agora PLEASE vamos dormir!!!